A impressão da marca não era bastante distincta para que se percebesse qual fosse a firma e qual a corôa. Ficava, porém, claro que a declaração não tinha sido escripta nem em casa d'elle, onde não havia d'aquelle papel, nem n'aquelle quarto, onde não havia papel algum, nem tinteiro, nem um livro, um buvard, um lapis.
Teria sido escripta fóra, na rua, ao acaso? Em casa d'alguem? Não, porque elle não tinha em Lisboa, nem relações intimas, nem conhecimento de pessoas cujo papel fosse marcado com corôa.
Teria sido feita n'uma loja de papel? Não, porque o papel que se vende vulgarmente nas lojas não tem corôas.
Seria a declaração escripta n'alguma meia folha branca tirada de uma velha carta recebida? Não parecia tambem natural, porque o papel estava dobrado ao meio e não tinha os vincos que dá o enveloppe.
Demais a folha tinha um aroma de pós de marechala, o mesmo que se sentia, suavemente embebido no ar do quarto em que estavamos.
Além d'isso, pondo o papel directamente sobre a claridade da luz, distingui o vestigio de um dedo polegar, que tinha sido assente sobre o papel no momento de estar suado ou humido, e tinha embaciado a sua brancura lisa e assetinada, havendo deixado uma impressão exacta. Ora este dedo parecia delgado, pequeno, feminil. Este indicio era notavelmente vago, mas o mascarado tinha a esse tempo encontrado um, profundamente efficaz e seguro.
—Este homem, notou elle, tinha o costume invariavel, mechanico, de escrever, abreviando-a, a palavra that, d'este modo: dois TT separados por um traço. Esta abreviatura era só d'elle, original, desconhecida. N'esta declaração, aliás pouco ingleza, a palavra that acha-se escripta por inteiro.
Voltando-se então para M. C.:
—Porque não apresentou logo este papel? perguntou o mascarado. Esta declaração foi falsificada.
—Falsificada! exclamou o outro, erguendo-se com sobresalto ou com surpreza.