Sr. redactor do Diario de Noticias

Venho pôr nas suas mãos a narração de um caso verdadeiramente extraordinario em que intervim como facultativo, pedindo-lhe que, pelo modo que entender mais adequado, publique na sua folha a substancia, pelo menos, do que vou expôr.

Os successos a que me refiro são tão graves, cerca-os um tal mysterio, envolve-os uma tal apparencia de crime que a publicidade do que se passou por mim torna-se importantissima como chave unica para a desencerração de um drama que supponho terrivel com quanto não conheça d'elle senão um só acto e ignore inteiramente quaes foram as scenas precedentes e quaes tenham de ser as ultimas.

Ha tres dias que eu vinha dos suburbios de Cintra em companhia de F…, um amigo meu, em cuja casa tinha ido passar algum tempo.

Montavamos dois cavallos que F… tem na sua quinta e que deviam ser reconduzidos a Cintra por um criado que viera na vespera para Lisboa.

Era ao fim da tarde quando atravessámos a charneca. A mellancolia do logar e da hora tinha-se-nos communicado, e vinhamos silenciosos, abstrahidos na paizagem, caminhando a passo.

A cerca de talvez de meia distancia do caminho entre S. Pedro e o Cacem, n'um ponto a que não sei o nome, porque tenho transitado pouco n'aquella estrada, sitio deserto como todo o caminho através da charneca, estava parada uma carruagem.

Era um coupé pintado de escuro, verde e preto, e tirado por uma parelha côr de castanha.

O cocheiro, sem libré, estava em pé, de costas para nós, diante dos cavallos.

Dois sujeitos achavam-se curvados ao pé das rodas que ficavam para a parte da estrada por onde tinhamos de passar, e pareciam occupados em examinar attentamente o jogo da carruagem.