E pensando isto, bati-lhe com os nós dos dedos na parede tres pancadinhas seccas, methodicamente espaçadas, como as dos signaes maçonicos.
Senti roçar a mão d'elle pelo papel que forrava o muro, como quem procurasse apalpar algum signal do rumor que ouvira.
Entrei então a repetir com successiva frequencia o rebate que lhe dera percorrendo differentes pontos da parede que servia de fundo ao armario.
Percebi que elle se sentava na cama. Ouvi estalar um phosphoro. Accendeu-se a luz. Parei. Houve uma pausa, durante a qual me conservei silencioso e immovel. O meu visinho apagou finalmente a luz ao cabo de alguns minutos, e eu recomecei a bater devagarinho e repetidamente como primeiro fizera. Elle, tendo escutado por algum tempo ás escuras, accendeu outra vez a vela e começou a examinar o espaço da parede, junto da qual lhe ficava a cama.
No momento em que a chamma da vela perpassava na mão d'elle por defronte do meu buraco, soprei-lhe de repente e apaguei a luz.
O allemão, que se achava de joelhos em cima da cama a revistar a parede, expediu um pequeno grito, que me pareceu mais de surpresa que de terror, com quanto o acompanhasse um estrondo pesado e extremamente significativo. O que produzira esse estrondo fôra o baque do corpo d'elle, cahindo da cama abaixo.
Logo depois ouvi a voz do visinho perguntando com decisão e firmeza:
—Quem está ahi?
Respondi-lhe:
—Sou eu.