Não obstante a disposição em que me achava de ceder da lucta e de entrar no trem, perguntei em allemão ao meu amigo se elle era de opinião que resistissemos ou que nos rendessemos.

—Rendam-se, rendam-se para nos poupar algum tempo que nos é precioso! disse gravemente um dos desconhecidos. Por quem são, acompanhem-nos! Um dia saberão por que motivo lhes sahimos ao caminho mascarados. Damos-lhes a nossa palavra que ámanhã estarão nas suas casas, em Lisboa. Os cavallos ficarão em Cintra d'aqui a duas horas.

Depois de uma breve reluctancia, que eu contribuí para desvanecer, o meu companheiro apeou-se e entrou no coupé. Eu segui-o.

Cederam-nos os melhores logares. O homem que se achava em frente da parelha segurou os nossos cavallos; o que fizera cair o poldro subiu para a almofada e pegou nas guias; ou outros dois entraram comnosco e sentaram-se nos logares fronteiros aos nossos. Fecharam-se em seguida os stores de madeira dos postigos e correu-se uma cortina de seda verde que cobria por dentro os vidros fronteiros da carruagem.

No momento de partirmos, o que ia guiar bateu na vidraça e pediu um charuto. Passaram-lhe para fóra uma charuteira de palha de Java. Pella fresta por onde recebeu os charutos lançou para dentro do trem a mascara que tinha no rosto, e partimos a galope.

Quando entrei para a carruagem pareceu-me avistar ao longe, vindo de Lisboa, um omnibus, talvez uma sege. Se me não illudi, a pessoa ou pessoas que vinham no trem a que me refiro terão visto os nossos cavallos, um dos quaes é russo e o outro castanho, e poderão talvez dar noticia da carruagem em que íamos e da pessoa que nos servia de cocheiro. O coupé era, como já disse, verde e preto. Os stores, de mogno polido, tinham no alto quatro fendas estreitas e oblongas, dispostas em cruz.

Falta-me tempo para escrever o que ainda me resta por contar a horas de expedir ainda hoje esta carta pela posta interna.

Continuarei. Direi então, se o não suspeitou já, o motivo porque lhe occulto o meu nome e o nome do meu amigo.

II

Julho, 24 de 1870—Acabo de ver a carta que lhe dirigi publicada integralmente por v. no logar destinado ao folhetim do seu periodico. Em vista da collocação dada ao meu escripto procurarei nas cartas que houver de lhe dirigir não ultrapassar os limites demarcados a esta secção do jornal.