—Caramba! murmurei, enfiado. Isto são magnificencias de entupir!
Fômos penetrando sob os Porticos de Salomão, onde resoava o profano tumulto d'um mercado. Por traz de grossas caixas gradeadas encruzavam-se os Cambistas, com uma moeda d'ouro pendente da orelha entre as melenas sordidas, trocando o dinheiro sacerdotal do Templo pelas moedas pagãs de todas as regiões, de todas as idades, desde as macissas rodellas do velho Lacio mais pesadas que broqueis, até aos tijolos gravados que circulam, como «notas» nas feiras da Assyria. Adiante, brilhava a frescura e abundancia d'um pomar: as romãs, estaladas de maduras, trasbordavam dos gigos: hortelões com um ramo d'amendoeira preso ao carapuço apregoavam grinaldas d'anemonas ou hervas amargas de Paschoa: jarras de leite puro pousavam sobre saccos de lentilha; e os cordeiros, deitados nas lages, amarrados pelas patas ás columnas, balavam tristemente de sêde.
Mas a multidão sobretudo apinhava-se, com suspiros de cubiça, em torno aos tecidos e ás joias. Mercadores das colonias phenicias, das Ilhas gregas, de Tardis, da Mesopotamia, de Tadmor, uns com soberbas simarras de lã bordada, outros com toscos tabardos de couro pintado, desdobravam os panos azues de Tyro que reproduzem o brilho ardente dos céos do Oriente, as sêdas impudicas de Sheba d'uma transparencia verde que vôa na aragem, e esses estofos solemnes de Babylonia que sempre me extasiavam, negros com largas flôres côr de sangue… Dentro de cofres de cedro, espalhados sobre tapetes da Galacia, reluziam espelhos de prata simulando a lua e os seus raios, sinetes de turmalina que os hebreus usam ao peito, manilhas de pedrarias enfiadas em cornos d'antilopes, diademas de sal-gema com que se enfeitam os noivos; e, resguardadas mais preciosamente, talismans e amuletos que me pareciam pueris, pedaços de raizes, pedregulhos negros, couros tisnados e ossos com letras.
Topsius ainda parou entre as tendas dos perfumistas apreçando um esplendido bastão de Tylos, d'uma rara madeira mosqueada como a pelle do tigre, mas logo fugimos ao ardente cheiro que alli suffocava, vindo das resinas, das gommas dos paizes dos Negros, dos mólhos de plumas de abestruz, da mirrha d'Oronte, das ceras de Cirenaica, dos oleos rosados de Cysico, e das grandes coifas de pelle d'hyppopotamo cheias de violetas seccas e de folhas de baccaris…
Entrámos então na galeria chamada Real, toda votada á Doutrina e á Lei. Ahi, cada dia, tumultuam rancorosamente as controversias entre Sadduceus, Escribas, Sophorins, Phariseus, sectarios de Schemaia, sectarios de Hillel, Juristas, Grammaticos, fanaticos de toda a terra judaica. Junto ás columnas de marmore installavam-se os Mestres da Lei, sobre altos escabellos, tendo ao lado um prato de metal onde cahiam os óbolos dos fieis: e em torno, encruzados no chão, com as sandalias ao pescoço, as pellicas cobertas de letras vermelhas desdobradas nos joelhos, os discipulos, imberbes ou decrepitos, resmoneavam os dictames balançando os hombros lentos. Aqui e além, no meio de devotos embebidos, dois doutores disputavam, com as faces assanhadas, sobre temerosos pontos da Doutrina. «Póde-se comer um ovo de gallinha posto no dia de Sabbath? Por que osso da espinha dorsal começa a Resurreição?» O philosophico Topsius ria, disfarçado n'uma préga da capa: mas eu tremia quando os doutores, escaveirados e barbudos, se ameaçavam, gritavam racca! racca! mergulhando a mão no seio da tunica á procura d'um ferro escondido.
A cada momento cruzavamos esses Phariseus, resoantes e vazios como tambores, que vêm ao Templo assoalhar a sua piedade—uns com as costas vergadas, esmagadas pela vastidão do peccado humano; outros, tropeçando e apalpando o ar, d'olhos fechados, para não vêr as fórmas impuras das mulheres; alguns mascarrados de cinza, gemendo, com as mãos apertadas sobre o estomago—em testemunho dos seus duros jejuns! Depois Topsius mostrou-me um Rabbi, interpretador de sonhos: n'um carão livido e chupado os seus olhos fundos luziam com a tristeza de lampadas de sepulchro: e, sentado sobre saccos de lã, estendia por cima de cada devoto, que vinha ajoelhar aos seus pés nús, a ponta d'um vasto manto negro com signos brancos pintados. Eu, curioso, pensava em o consultar—quando de repente gritos afflictos resoaram no atrio. Corremos. Eram levitas, com cordas e vergas, chibatando furiosamente um leproso que, em estado de impureza, penetrára no pateo de Israel. O sangue salpicava as lages. Em torno crianças riam.
Ia cahindo a sexta hora judaica, a mais grata ao Senhor, quando o sol, na sua marcha para o mar, pára sobre Jerusalem a contemplal-a com paixão: e, para nos acercarmos do «atrio d'Israel», fomos penosamente fendendo a multidão que alli remoinhava vinda de toda a terra culta e barbara… O rude saião de pelles dos pegureiros das Idumêas roçava a chlamyde curta dos gregos de face rapada e mais brancos que marmores. Havia homens solemnes da planicie de Babylonia, com as barbas mettidas dentro de saccos azues que uma corrente de prata lhes prendia ás mitras de couro pintado: e havia gaulezes ruivos, de bigodes pendentes como as hervas das suas lagôas, que riam e parolavam, devorando com a casca os limões dôces da Syria. Por vezes um romano togado passava, tão grave como se descesse d'um pedestal. Gente da Dacia e da Mysia, com as pernas enfeixadas em ligaduras de feltro, tropeçava deslumbrada pelo claro esplendor dos marmores. E não era menos estranho ir eu, Theodorico Raposo, arrastando alli as minhas botas de montar, atraz d'um Sacerdote de Moloch, enorme e sensual na sua simarra de purpura, que, em meio d'um bando de mercadores de Serepta, desdenhava d'aquelle templo sem imagens, sem bosques, e mais ruidoso que uma feira phenicia.
Assim lentamente nos fomos chegando á porta chamada «A Bella», que dava accesso para o Atrio sagrado d'Israel. Bella em verdade, preciosa e triumphal, sobre os quatorze degraus de marmore verde de Numidia, mosqueado de amarello: os seus largos batentes, revestidos de chapas de prata, faiscavam como os d'um reliquario: e os dois humbraes, semelhantes a grossos mólhos de palmas, sustentavam uma torre, redonda e branca, guarnecida de escudos tomados aos inimigos de Judá, brilhantes no sol como um collar de gloria sobre o pescoço forte d'um heroe! Mas diante d'este adito maravilhoso erguia-se severamente um pilar, encimado por uma placa negra com letras d'ouro, onde se desenrolava esta ameaça em grego, em latim, em aramaico, em chaldaico: que nenhum Estrangeiro aqui penetre sob pena de morrer!
Fortunadamente avistámos o magro Gamaliel que se encaminhava ao Santo Pateo, descalço, apertando ao peito um mólho d'espigas votivas: com elle vinha um homem nedio e risonho, de face côr de papoula, coroado por uma enorme mitra de lã negra enfeitada de fios de coral… Curvados até ás lages, saudámos o austero Doutor da Lei. Elle psalmodiou logo, de palpebras cerradas:
—Sêde bemvindos… Esta é a hora melhor para receber a benção do Senhor. O Senhor disse: «sahi das vossas habitações, vinde a mim com as primicias dos vossos fructos, eu vos abençoarei em todas as obras das vossas mãos…» Vós hoje pertenceis miraculosamente a Israel. Subi á morada do Eterno! Este que vem a meu lado é Eliezer de Silo, benefico e sabio entre todos nas coisas da natureza.