—Sêde bem vindos, rosnou Gamaliel. Grandes são as maravilhas de Sião, deveis vir esfomeados…

Bateu de leve as palmas. Os escravos, caminhando sem ruido nas sandalias de feltro, e precedidos majestosamente pelo homem obeso de tunica amarella, entraram, erguendo muito alto largos pratos de cobre que fumegavam.

A um lado tinhamos, para limpar os dedos, um bôlo de farinha branco, fino e molle como um pano de linho; do outro um prato largo, com cercadura de perolas, onde negrejava entre ramos de salsa um montão de cigarras fritas; no chão jarros com agua de rosa. Cumprimos as abluções: e Gamaliel, tendo purificado a bocca com um pedaço de gêlo, murmurou a oração ritual sobre a vasta travessa de prata, onde o cabrito assado fazia transbordar o môlho d'açafrão e saumura.

Topsius, bom sabedor das maneiras orientaes, arrotou fortemente, por cortezia, demonstrando fartura e deleite: depois, com uma febra de anho entre os dedos, affirmou sorrindo aos Doutores que Jerusalem lhe parecera magnifica, formosa de claridade, e bemdita entre as cidades…

Eliezer de Silo acudiu, com os olhos cerrados de gozo, como se o acariciassem:

—Ella é uma joia melhor que o diamante, e o Senhor engastou-a no centro da Terra para que irradiasse igualmente o seu brilho em redor…

—No centro da Terra!… murmurou o Historiador, com douto espanto.

Sim! E, ensopando um pedaço de bôlo no môlho d'açafrão, o profundo Physico explicou a Terra. Ella é chata e mais redonda que um disco; no meio está Jerusalem a santa, como um coração cheio do amor do Altissimo; em redor a Judêa, rica em balsamos e palmeiras, cerca-a de sombra e de aromas; para além ficam os pagãos, em regiões duras onde nem o mel nem o leite abundam; depois são os mares tenebrosos… E por cima o céo, sonoro e solido.

—Solido!… balbuciou o meu sapiente amigo, esgazeado.

Os escravos serviam em taças de prata cerveja amarella da Media. Com solicitude Gamaliel aconselhou-me que, para lhe avivar o sabôr, trincasse uma cigarra frita. E Rabbi Eliezer, sabio entre todos nas coisas da Natureza, revelava a Topsius a divina construcção do céo.