Então fui eu, Theodorico, Ibero, d'um remoto municipio romano, que contei a um Physico de Jerusalem, creado entre os marmores do Templo, a vida do Senhor! Disse as coisas dôces e as coisas fortes: as tres claras estrellas sobre o seu berço; a sua palavra amansando as aguas de Galilêa; o coração dos simples palpitando por elle; o Reino do Céo que promettia; e a sua face augusta brilhando diante do Pretor de Roma…

—Depois os Padres, os Patricios e os Ricos crucificaram-no!

Doutor Eliezer, volvendo a remexer o açafate de figos, murmurou pensativamente:

—Triste, triste!… Todavia, meu filho, o Sanhedrin é misericordioso. Em sete annos, desde que o sirvo, apenas tem lançado tres sentenças de morte… Sim, decerto o mundo necessita bem escutar uma palavra de amor e de justiça: mas Israel tem soffrido tanto com innovadores, com prophetas!… Emfim, nunca se deveria derramar o sangue do homem… E a verdade é que estes figos de Bephtagé não valem os meus de Silo!

Calado, enrolei um cigarro. E n'esse instante o douto Topsius, debatendo ainda com Gamaliel o Hellenismo e as escólas Socraticas, empinado, d'oculos na ponta do bico, soltava este resumo forte:

—Socrates é a semente; Platão a flôr; Aristoteles o fructo… E d'esta arvore, assim completa, se tem nutrido o espirito humano!

Mas Gamaliel subitamente ergueu-se: Doutor Eliezer tambem, arrotando com effusão. Ambos tomaram os cajados, ambos gritaram:

—Alleluia! Louvai o Senhor que nos tirou da terra do Egypto!

Findára a ceia Paschal. O esclarecido Historiador, que limpava o suor da controversia, olhou logo vivamente o relogio e rogou a Gamaliel permissão de subir ao terraço, a refrescar a sua emoção no ar macio d'Ophel… O Doutor da Lei conduziu-nos á varanda alumiada pallidamente por lampadas de mica, mostrou-nos a ingreme escada de ebano que levava aos eirados; e chamando sobre nós a graça do Senhor, penetrou com Eliezer n'um aposento cerrado por cortinas de Mesopotamia—d'onde sahiu um aroma, um fino rumor de risos e sons lentos de lyra.

Que dôce ar no terraço! E que alegre essa noite de Paschoa em Jerusalem! No céo, mudo e fechado como um palacio onde ha luto, nenhum astro brilhava: mas o burgo de David e a collina d'Acra, com as suas illuminações rituaes, pareciam salpicadas d'ouro. Em cada eirado, vasos com estopa ardendo em oleo lançavam uma chamma ondeante e vermelha. Aqui e além, n'alguma casa mais alta os fios de luzes, na parede escura, reluziam como um collar de joias no pescoço d'uma negra. O ar estava dôcemente cortado dos gemidos de flauta, da dolente vibração das cordas do konnor: e em ruas alumiadas por grandes fogueiras de lenha, viamos esvoaçar, claras e curtas, as tunicas de gregos dançando a callabida. Só as torres, mais vastas na noite, a Hippica, a Marianna, a Pharsala se conservavam escuras: e o mugido das suas bozinas passava por vezes, rouco e rude, como uma ameaça, sobre a santa cidade em festa.