Esfalfado, o servo contou que depois de partirmos, varrendo o quarto, descobrira o embrulhinho entre pó e aranhas, detraz da commoda; limpára-o carinhosamente; e como fôra sempre seu afan servir o fidalgo lusitano, abalára, mesmo sem a jaleca…
—Basta! rosnei eu, sêcco e carrancudo.
Dei-lhe as moedas de cobre que me atulhavam as algibeiras. E pensava: «Como rolou elle para traz da commoda?» Talvez o negro atabalhoado que, arrumando, o tirára do seu ninho de piugas… Pois antes lá permanecesse para sempre, entre o pó e as aranhas! Porque em verdade este pacote era agora audazmente impertinente.
Decerto! eu amava a Mary. A esperança que em breve na terra do Egypto seria apertado pelos seus braços gordinhos ainda me fazia espreguiçar com langor. Mas guardando fielmente a sua imagem no coração, não necessitava trazer perennemente á garupa a sua camisinha de dormir. Com que direito pois corria esta bretanha atraz de mim, pelas ruas de Jerusalem, querendo installar-se violentamente nas minhas malas e acompanhar-me á minha patria?
E era essa idéa de patria que me torturava, emquanto nos afastavamos das muralhas da Cidade Santa… Como poderia eu jámais penetrar com este pacote lubrico na casa ecclesiastica da tia Patrocinio? Constantemente a titi se encafuava no meu quarto, munida de chaves falsas, aspera e avida, rebuscando pelos cantos, nas minhas cartas e nas minhas ceroulas… Que cólera a esverdearia se n'uma noite de pesquizas ella encontrasse estas rendas babujadas pelos meus labios, fedendo a peccado, com a offerta em letra cursiva «Ao meu portuguezinho valente!»
«Se soubesse que n'esta santa viagem te tinhas mettido com saias, escorraçava-te como um cão!» Assim o dissera a titi, em vesperas da minha romagem, diante da Magistratura e da Egreja. E iria eu, pelo luxo sentimental de conservar a reliquia d'uma luveira, perder a amizade da velha que tão caramente conquistára com terços, pingos d'agua benta e humilhações da razão liberal? Jámais!… E, se não afoguei logo o embrulho funesto na agua d'um charco, ao atravessarmos as choças de Kolonieh, foi para não revelar ao penetrante Topsius as covardias do meu coração. Mas decidi que mal penetrassemos com a noite nas montanhas de Judá, retardaria o passo á egoa, e longe dos oculos do Historiador, longe das solicitudes de Potte, arrojaria a um barranco a terrivel camisa da Mary, evidencia do meu peccado e damno da minha fortuna. E que bem depressa os dentes dos chacaes a rasgassem! Bem depressa os chuveiros do Senhor a apodrecessem!
Já passáramos o tumulo de Samuel por traz dos rochedos d'Emmaus, já para sempre Jerusalem desapparecera aos meus olhos, quando a egoa de Topsius, avistando uma fonte, n'um valle cavado junto á estrada, deixou a caravana, deixou o dever—e trotou para a agua, com impudencia e com alacridade. Estaquei, indignado:
—Puxe-lhe a redea, doutor! Olha que descaro d'egoa! Ainda agora bebeu… Não lhe ceda! Puxe mais! Não lhe toque, homem!
Mas debalde o philosopho, com os cotovêlos sahidos, as pernas esticadas, lhe repuxava bridões e clinas. A cavalgadura abalou com o philosopho.
Corri tambem á fonte, para não abandonar n'aquelle ermo o precioso homem. Era um fio d'agua turva, escorrendo d'uma quelha, sobre um tanque escavado na rocha. Ao pé branquejava, já partida, a grande carcassa d'um dromedario. Os ramos d'uma mimosa, alli solitaria, tinham sido queimados por um fogo de caravana. Longe, na espinha escarnada d'uma collina, um pastor, negro no céo opalino, ia caminhando devagar entre as suas ovelhas com a lança pousada ao hombro. E na sombria mudez de tudo a fonte chorava.