Ia rebolar-me no divan, rasgal-o com as unhas, rir sempre, n'um desesperado desprezo de tudo… Mas Topsius e o risonho Potte appareceram alvoroçados.
—Então?…
Sim, chegára de Smyrna um paquete que levantava n'essa tarde ferro para o Egypto, e que era o nosso dilecto Caimão!
—Ainda bem! gritei, atirando patadas ao ladrilho. Ainda bem, que estava farto do Oriente!… Irra! que não apanhei aqui senão soalheiras, traições, sonhos medonhos e botas pelos quadris! Estava farto!
Assim eu bramava, sanhudo. Mas n'essa tarde, na praia, diante da barcaça negra que nos devia levar ao Caimão, entrou-me n'alma uma longa saudade da Palestina, e das nossas tendas erguidas sob o esplendor das estrellas, e da caravana marchando e cantando por entre as ruinas de nomes sonoros.
O labio tremeu-me, quando Potte commovido me estendeu a sua bolsa de tabaco d'Alepo:
—D. Raposo, é o ultimo cigarro que lhe dá o alegre Potte.
E a lagrima rolou por fim quando Alpedrinha, em silencio, me estendeu os braços magros.
Da barcaça, acocorado sobre os caixões das Reliquias, ainda o vi na praia, sacudindo para mim um lenço triste de quadrados—ao lado de Potte que nos atirava beijos, com as grossas botas mettidas n'agua. E já no Caimão, debruçado na amurada, ainda o avistei immovel sobre as pedras do molhe, segurando com as mãos, contra a brisa salgada, o seu vasto turbante branco.
Desventuroso Alpedrinha! Só eu, em verdade, comprehendi a tua grandeza! Tu eras o derradeiro Lusiada, da raça dos Albuquerques, dos Castros, dos varões fortes que iam nas armadas á India! A mesma sêde divina do desconhecido te levára, como elles, para essa terra de Oriente, d'onde sobem ao céo os astros que espalham a luz e os deuses que ensinam a lei. Sómente não tendo já, como os velhos Lusiadas, crenças heroicas concebendo empresas heroicas, tu não vaes como elles, com um grande rosario e com uma grande espada, impôr ás gentes estranhas o teu rei e o teu Deus. Já não tens Deus por quem se combata, Alpedrinha! nem rei por quem se navegue, Alpedrinha!… Por isso, entre os povos do Oriente, te gastas nas occupações unicas que comportam a fé, o ideal, o valor dos modernos Lusiadas—descansar encostado ás esquinas, ou tristemente carregar fardos alheios…