—Bravissimo! gritou o impetuoso dr. Margaride. Com quê, Theodorico, seguiu-se o meu conselho? Esgaravataram-se esses sepulchros?… Bravissimo! É de generoso romeiro!

—É de sobrinho, como já o não ha no nosso Portugal! acudiu padre
Pinheiro junto ao espelho, onde estudava a lingua saburrenta…

—É de filho, é de filho! proclamava o Justino, alçado na ponta dos botins.

Então o Negrão, mostrando os dentes famintos, babujou esta coisa vilissima:

—Resta saber, cavalheiros, de que Reliquia se trata.

Tive sêde, ardente sêde do sangue d'aquelle padre! Trespassei-o com dois olhares mais agudos e faiscantes do que espetos em braza:

—Talvez v. s.^a, se é um verdadeiro sacerdote, se atire de focinho para baixo a rezar, quando apparecer aquella maravilha!…

E voltei-me para a snr.^a D. Patrocinio, com a impaciencia de uma nobre alma offendida que carece de reparação:

—É já, titi! Vamos ao Oratorio! Quero que fique tudo aqui assombrado! Foi o que disse o meu amigo allemão: «Essa reliquia, ao destapar-se, é de ficar uma familia inteira azabumbada!…»

Deslumbrada, a titi ergueu-se de mãos postas. Eu corri a prover-me d'um martello. Quando voltei, o dr. Margaride, grave, calçava as suas luvas pretas… E atraz da snr.^a D. Patrocinio, cujos setins faziam no sobrado um ruge-ruge de vestes de prelado, penetrámos no corredor onde o grande bico de gaz silvava dentro do seu vidro fôsco. Ao fundo a Vicencia e a cozinheira espreitavam com os seus rosarios na mão.