Mal sei o que occorreu no florido Oratorio! Achei-me á porta, enrodilhado na cortina verde, com as pernas a vergar, n'um desmaio. Estalando, como achas atiradas a uma fogueira, eu sentia as accusações do Negrão bradadas contra mim junto á touca da titi:—«Deboche! escarneo! camisa de prostituta! achincalho á snr.^a D. Patrocinio! profanação do Oratorio!» Distingui a sua bota arrojando furiosamente para o corredor o trapo branco. Um a um, entrevi os amigos perpassarem, como longas sombras levadas por um vento de terror. As luzes das velas arquejavam, afflictas. E, ensopado em suor, entre as prégas da cortina, percebi a titi caminhando para mim, lenta, livida, hirta, medonha… Estacou. Os seus frios e ferozes oculos trespassaram-me. E através dos dentes cerrados cuspiu esta palavra:
—Porcalhão!
E sahiu.
Rolei para o quarto, tombei no leito, esbarrondado. Um rumor d'escandalo acordára o casarão severo. E a Vicencia surgiu diante de mim, enfiada, com o seu avental branco na mão:
—Menino! Menino! A senhora manda dizer que sáia immediatamente para o meio da rua, que o não quer nem mais um instante em casa… E diz que póde levar a sua roupa branca e todas as suas porcarias!
Despedido!
Ergui a face molle da travesseira de rendas. E a Vicencia, atontada, torcendo o avental:
—Ai, menino! Ai, menino! se não sae já para a rua, a senhora diz que manda chamar um policia!
Escorraçado!
Atirei os pés incertos para o soalho. Mergulhei na algibeira uma escova de dentes: topando nos moveis, procurei as chinelas que embrulhei n'um numero da Nação. Sem reparo, agarrei d'entre as malas um caixote com bandas de ferro:—e em ponta de botins desci a escada da titi, encolhido e rasteiro, como um cão tinhoso vexado da sua tinha.