—Lá o meu Raposo, apesar de Coimbra e dos compendios que lhe metteram no caco, tem dedo para as coisas sérias!

Ora n'um sabbado d'agosto, á tarde, quando eu ia fechar o Livro de Caixa, Chrispim & C.^a parou diante da minha carteira, risonho e accendendo o charuto:

—Ouve lá, ó Raposão, tu a que missa costumas ir?

Silenciosamente, tirei a minha manga de lustrina.

—Eu pergunto isto, ajuntou logo a Firma, porque ámanhã vou com minha irmã á Outra Banda, a uma quinta nossa, á Ribeira. Ora se tu não estás muito apegado a outra missa, vinhas á de Santos, ás nove, iamos almoçar ao Hotel Central, e embarcavamos de lá para Cacilhas. Estou com vontade que conheças minha irmã!…

Chrispim & C.^a era um cavalheiro religioso que considerava a Religião indispensavel á sua saude, á sua prosperidade commercial, e á boa ordem do paiz. Visitava com sinceridade o Senhor dos Passos da Graça, e pertencia á Irmandade de S. José. O empregado, cuja carteira eu occupava, tornára-se-lhe sobretudo intoleravel por escrever no Futuro, gazeta republicana, folhetins louvando Renan e ultrajando a Eucharistia. Eu ia dizer a Chrispim & C.^a que estava tão apegado á missa da Conceição Nova, que outra não me podia saber bem… Mas lembrei a Voz austera e salutar da travessa da Palha! Recalquei a mentira beata que já me sujava os labios—e disse, muito pallido e muito firme:

—Olha, Chrispim, eu nunca vou á missa… Tudo isso são patranhas… Eu não posso acreditar que o corpo de Deus esteja todos os domingos n'um pedaço d'hostia feita de farinha. Deus não tem corpo, nunca teve… Tudo isso são idolatrias, são carolices… Digo-te isto rasgadamente… Pódes fazer agora commigo o que quizeres. Paciencia!

A Firma considerou-me um momento mordendo o beiço:

—Pois olha, Raposo, calha-me essa franqueza!… Eu gósto de gente lisa… O outro velhaco, que estava ahi a essa carteira, diante de mim dizia: «Grande homem, o Papa!» E depois ia para os botequins e punha o Santo Padre de rastos… Pois acabou-se! Não tens religião, mas tens cavalheirismo… Em todo o caso, ás dez no Central para o almocinho, e á vela depois para a Ribeira!

Assim eu conheci a irmã da Firma. Chamava-se D. Jesuina, tinha trinta e dois annos e era zarôlha. Mas, desde esse domingo de rio e de campo, a riqueza dos seus cabellos ruivos como os d'Eva, o seu peito solido e succulento, a sua pelle côr de maçã madura, o riso são dos seus dentes claros—tornavam-me pensativo, quando á tardinha, com o meu charuto, eu recolhia á Baixa pelo Aterro, olhando os mastros das falúas…