—Pois essa! Tem-n'a por conta o Negrão, com luxo, tapete na escada, cortinas de damasco, tudo… E está mais gordo. Vi-o hontem, vinha de prégar… Pelo menos disse-me que «sahia de S. Roque esfalfado de dizer amabilidades a um diabo d'um Santo!» Que o Negrão ás vezes é engraçado. E tem bons amigos, lábia, influencia em Torres… Ainda o vemos Bispo!
Recolhi á minha familia, pensativo. Tudo o que eu esperára e amára (até á Adelia!) o possuia agora legitimamente o horrendo Negrão!… Perda pavorosa! E que não proviera da troca dos meus embrulhos, nem dos erros da minha hyprocrisia.
Agora, pai, commendador, proprietario, eu tinha uma comprehensão mais positiva da vida: e sentia bem que fôra esbulhado dos contos de G. Godinho simplesmente por me ter faltado no Oratorio da titi—a coragem d'affirmar!
Sim! quando em vez d'uma Corôa de Martyrio apparecera, sobre o altar da titi, uma camisa de peccado—eu deveria ter gritado, com segurança: «Eis ahi a Reliquia! Quiz fazer a surpreza… Não é a Corôa de Espinhos. É melhor! É a camisa de Santa Maria Magdalena!… Deu-m'a ella no Deserto!…»
E logo o provava com esse papel, escripto em letra perfeita: Ao meu portuguezinho valente, pelo muito que gozámos… Era essa a carta em que a Santa me offertava a sua camisa. Lá brilhavam as suas iniciaes—M. M.! Lá destacava essa clara, evidente confissão—«o muito que gozámos»: o muito que eu gozára em mandar á Santa as minhas orações para o céo, o muito que a Santa gozára no céo em receber as minhas orações!
E quem o duvidaria? Não mostram os santos Missionarios de Braga, nos seus sermões, bilhetes remettidos do céo pela Virgem Maria, sem sêllo? E não garante a Nação a divina authenticidade d'essas missivas, que têm nas dobras a fragrancia do paraiso? Os dois sacerdotes, Negrão e Pinheiro, conscios do seu dever, e na sua natural sofreguidão de procurar esteios para a Fé oscillante—acclamariam logo na camisa, na carta e nas iniciaes, um miraculoso triumpho da Egreja! A tia Patrocinio cahiria sobre o meu peito, chamando-me «seu filho e seu herdeiro.» E eis-me rico! Eis-me beatificado! O meu retrato seria pendurado na sacristia da Sé. O Papa enviar-me-hia uma Benção Apostolica, pelos fios do telegrapho.
Assim ficavam saciadas as minhas ambições sociaes. E quem sabe? Bem poderiam ficar tambem satisfeitas as ambições intellectuaes que me pegára o douto Topsius. Porque talvez a Sciencia, invejosa do triumpho da Fé, reclamasse para si esta camisa de Maria de Magdala como documento archeologico… Ella poderia alumiar escuros pontos na Historia dos Costumes contemporaneos do Novo Testamento—o feitio das camisas na Judêa no primeiro seculo, o estado industrial das rendas da Syria sob a administração Romana, a maneira de abainhar entre as raças semiticas… Eu surgiria, na consideração da Europa, igual aos Champollions, aos Topsius, aos Lepsius, e outros sagazes resuscitadores de Passado. A Academia logo gritaria—«A mim, o Raposo!» Renan, esse heresiarcha sentimental, murmuraria—«Que suave collega, o Raposo!» Sem demora se escreveriam sobre a camisa da Mary sabios, ponderosos livros em allemão, com mappas da minha romagem em Galilêa… E eis-me ahi bemquisto pela Egreja, celebrado pelas Universidades, com o meu cantinho certo na Bemaventurança, a minha pagina retida na Historia, começando a engordar pacificamente dentro dos contos de G. Godinho!
E tudo isto perdera! Porquê? Porque houve um momento em que me faltou esse descarado heroismo d'affirmar, que, batendo na Terra com pé forte, ou pallidamente elevando os olhos ao Céo—cria através da universal illusão, Sciencias e Religiões.
Porto: 1887—Typ. de A. J. da Silva Teixeira
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