A titi gostou d'esta consideração.

Depois, tristemente, como um moralista magoado, queixei-me do nedio decote d'uma senhora immodesta, núa nos braços, núa no peito, mostrando toda essa carne, esplendida e irreligiosa, que é a desolação do justo e a angustia da Igreja.

—Jesus, Senhor, que vexame! Acredite a titi, estava com nojo!

A titi gostou d'este nojo.

E passados dias, depois do café, quando eu me dirigia, ainda de chinelas, ao oratorio, a fazer uma curta petição ás chagas do nosso Christo d'ouro—a titi, já de braços cruzados e somnolenta, disse-me d'entre a sombra do lenço:

—Está bom, se queres, volta hoje a S. Carlos… E lá quando te appetecer, não te acanhes, tens licença, pódes ir gozar um bocado de musica… Agora que estás um homem, e que parece que tens proposito, não me importa que fiques fóra, até ás onze ou onze e meia… Em todo o caso a essa hora quero estar já de porta fechada, e tudo prompto, para começarmos o terço.

Ella não viu o triumphante lampejar dos meus olhos. Eu murmurei, requebrado, a babar-me de gosto devoto:

—Lá o terço, titi, lá o meu querido terço não perdia eu, nem pelo maior divertimento… Nem que el-rei me convidasse para um chásinho no paço!

Corri, delirante, a enfiar a casaca. E este foi o começo d'essa anhelada liberdade que eu conquistára laboriosamente, vergando o espinhaço diante da titi, macerando o peito diante de Jesus! Liberdade bem vinda, agora que Eleuterio Serra partira para Paris, fazer os seus fornecimentos, e deixára a Adelia só, solta, bella, mais jovial, mais fogosa!

Sim, decerto, eu ganhára a confiança da titi com os meus modos pontuaes, sisudos, servis e beatos! Mas o que a levára a alargar assim, com generosidade, as minhas horas de honesto recreio, fôra (como ella disse confidencialmente ao padre Casimiro) a certeza de que eu «me portava com religião e não andava atraz de saias.»