O Jordão, fio d'agua barrento e pêco que se arrasta entre areaes, nem póde ser comparado a esse claro e suave Lima que lá baixo, ao fundo do Mosteiro, banha as raizes dos meus amieiros: e todavia vêde! estas meigas aguas portuguezas não correram jámais entre os joelhos d'um Messias, nem jámais as roçaram as azas dos anjos, armados e rutilantes, trazendo do céo á terra as ameaças do Altissimo!
Entretanto como ha espiritos insaciaveis que, lendo d'uma jornada pelas terras da Escriptura, anhelam conhecer desde o tamanho das pedras até ao preço da cerveja—eu recommendo a obra copiosa e luminosa do meu companheiro de romagem, o allemão Topsius, doutor pela Universidade de Bonn e membro do Instituto Imperial de Excavações Historicas. São sete volumes in-quarto, atochados, impressos em Leipzig, com este titulo fino e profundo—Jerusalem Passeada e Commentada.
Em cada pagina d'esse solido Itinerario o douto Topsius falla de mim, com admiração e com saudade. Denomina-me sempre o illustre fidalgo lusitano; e a fidalguia do seu camarada, que elle faz remontar aos Barcas, enche manifestamente o erudito plebeu de delicioso orgulho. Além d'isso o esclarecido Topsius aproveita-me, através d'esses repletos volumes, para pendurar ficticiamente, nos meus labios e no meu craneo, dizeres e juizos ensopados de beata e babosa credulidade—que elle logo rebate e derroca com sagacidade e facundia! Diz, por exemplo:—«Diante de tal ruina, do tempo da Cruzada de Godofredo, o illustre fidalgo lusitano pretendia que Nosso Senhor, indo um dia com a Santa Veronica…»—E logo alastra a tremenda, turgida argumentação com que me deliu. Como porém as arengas que me attribue não são inferiores em sabio chorume e arrogancia theologica ás de Bossuet, eu não denunciei n'uma nota á Gazeta de Colonia—por que tortuoso artificio a afiada razão da Germania se enfeita assim de triumphos sobre a romba fé do Meio-Dia.
Ha porém um ponto de Jerusalem Passeada que não posso deixar sem energica contestação. É quando o doutissimo Topsius allude a dois embrulhos de papel, que me acompanharam e me occuparam, na minha peregrinação, desde as viellas de Alexandria até ás quebradas do Carmello. N'aquella fórma rotunda que caracterisa a sua eloquencia universitaria, o dr. Topsius diz:—«O illustre fidalgo lusitano transportava alli restos dos seus antepassados, recolhidos por elle, antes de deixar o sólo sacro da patria, no seu velho solar torreado!…» Maneira de dizer singularmente fallaz e censuravel! Porque faz suppôr á Allemanha erudita que eu viajava pelas terras do Evangelho—trazendo embrulhados n'um papel pardo os ossos dos meus avós!
Nenhuma outra imputação me poderia tanto desaprazer e desconvir. Não por me denunciar á Egreja como um profanador leviano de sepulturas domesticas: menos me pezam a mim, commendador e proprietario, as fulminações da Egreja—que as folhas sêccas que ás vezes cahem sobre o meu guardasol de cima d'um ramo morto: nem realmente a Egreja, depois de ter embolsado os seus emolumentos por enterrar um mólho d'ossos, se importa que elles para sempre jazam resguardados sob a rigida paz d'um marmore eterno, ou que andem chocalhados nas dobras molles d'um papel pardo. Mas a afirmação de Topsius desacredita-me perante a Burguezia Liberal:—e só da Burguezia Liberal, omnipresente e omnipotente, se alcançam, n'estes tempos de semitismo e de capitalismo, as coisas boas da vida, desde os empregos nos bancos até ás commendas da Conceição. Eu tenho filhos, tenho ambições. Ora a Burguezia Liberal aprecia, recolhe, assimila com alacridade um cavalheiro ornado de avoengos e solares: é o vinho precioso e velho que vai apurar o vinho novo e crú: mas com razão detesta o bacharel, filho d'algo, que passeie por diante d'ella, enfunado e têso, com as mãos carregadas de ossos de antepassados—como um sarcasmo mudo aos antepassados e aos ossos que a ella lhe faltam.
Por isso intímo o meu douto Topsius (que com seus penetrantes oculos viu formar os meus embrulhos, já na terra do Egypto, já na terra de Canaan) a que na edição segunda de Jerusalem Passeada, sacudindo pudicos escrupulos de Academico e estreitos desdens de Philosopho, divulgue á Allemanha scientifica e á Allemanha sentimental qual era o recheio que continham esses papeis pardos—tão francamente como eu o revelo aos meus concidadãos n'estas paginas de repouso e de ferias, onde a Realidade sempre vive, ora embaraçada e tropeçando nas pesadas roupagens da Historia, ora mais livre e saltando sob a caraça vistosa da Farça!
I
Meu avô foi o padre Rufino da Conceição, licenciado em theologia, author de uma devota Vida de Santa Philomena, e prior da Amendoeirinha. Meu pai, afilhado de Nossa Senhora da Assumpção, chamava-se Rufino da Assumpção Raposo—e vivia em Evora com a minha avó, Philomena Raposo, por alcunha a «Repolhuda,» doceira na rua do Lagar dos Dizimos. O papá tinha um emprego no correio, e escrevia por gosto no Pharol do Alemtejo.
Em 1853, um ecclesiastico illustre, D. Gaspar de Lorena, bispo de Chorazin (que é em Galilêa), veio passae o S. João a Evora, a casa do conego Pitta, onde o papá muitas vezes á noite costumava ir tocar violão. Por cortezia com os dois sacerdotes, o papá publicou no Pharol uma chronica, laboriosamente respigada no Peculio de Prégadores, felicitando Evora «pela dita d'abrigar em seus muros o insigne prelado D. Gaspar, lume fulgente da Igreja, e preclarissima torre de santidade.» O bispo de Chorazin recortou este pedaço do Pharol para o metter entre as folhas do seu Breviario; e tudo no papá lhe começou a agradar, até o aceio da sua roupa branca, até a graça chorosa com que elle cantava, acompanhando-se no violão, a xacara do conde Ordonho. Mas quando soube que este Rufino da Assumpção, tão moreno e sympathico, era o afilhado carnal do seu velho Rufino da Conceição, camarada de estudos no bom Seminario de S. José e nas veredas theologicas da Universidade, a sua affeição pelo papá tornou-se extremosa. Antes de partir de Evora deu-lhe um relogio de prata; e, por influencia d'elle, o papá, depois de arrastar alguns mezes a sua madraçaria pela alfandega do Porto, como aspirante, foi nomeado, escandalosamente, director da alfandega de Vianna.
As macieiras cobriam-se de flôr quando o papá chegou ás veigas suaves d'Entre-Minho-e-Lima; e logo n'esse julho conheceu um cavalheiro de Lisboa, o commendador G. Godinho, que estava passando o verão com duas sobrinhas, junto ao rio, n'uma quinta chamada o Mosteiro, antigo solar dos condes de Lindoso. A mais velha d'estas senhoras, D. Maria do Patrocinio, usava oculos escuros, e vinha todas as manhãs da quinta á cidade, n'um burrinho, com o criado de farda, ouvir missa a Sant'Anna. A outra, D. Rosa, gordinha e trigueira, tocava harpa, sabia de cór os versos do Amor e Melancolia, e passava horas, á beira da agua, entre a sombra dos amieiros, rojando o vestido branco pelas relvas, a fazer raminhos silvestres.