Nosso Senhor Jesus Christo? E só comprehendi, quando o esclarecido jurisconsulto, já mais calmo, me revelou que a titi, ainda no ultimo anno da minha formatura, tencionava deixar a sua fortuna, terras e predios, a Irmandades da sua sympathia e a padres da sua devoção.

—Estou perdido! murmurei.

Os meus olhos, casualmente, encontraram, lá ao fundo, o moço triste diante do seu capilé. E pareceu-me que elle se assemelhava a mim como um irmão, que era eu proprio, Theodorico, já desherdado, sordido, com as botas cambadas, vindo alli ruminar as dôres da minha vida, á noite, diante d'um capilé.

Mas o dr. Margaride acabára a torrada. E estendendo regaladamente as pernas, consolou-me, de palito na bocca, affavel e perspicaz.

—Nem tudo está perdido, Theodorico. Não me parece que esteja tudo perdido… É possivel que a senhora sua tia tenha mudado d'idéa… Você é bem comportado, amima-a, lê-lhe o jornal, reza o terço com ella… Tudo isto influe. Que é necessario dizel-o, o rival é forte!

Eu gemi:

—É d'arromba!

—É forte. E devo acrescentar, digno de todo o respeito… Jesus Christo padeceu por nós, é religião do Estado, não ha senão curvar a cabeça… Olhe, quer você a minha opinião? Pois ahi a tem, franca e sem rebuço, para lhe servir de guia… Você vem a herdar tudo, se D. Patrocinio, sua tia e minha senhora, se convencer que deixar-lhe a fortuna a você é como deixal-a á Santa Madre Igreja…

O magistrado pagou o chá, nobremente. Depois, na rua, já abafado no seu paletot, ainda me disse baixinho:

—Com franqueza, que tal, a torrada?