—Porque deixe-me dizer-lhe, minha respeitavel senhora, que este seu arroz está um primor!… E a ambição de ter sempre um arroz d'estes, e amigos que o apreciem, parece-me a mais legitima e a melhor para uma alma justa…

E assim se veio a discursar das acertadas ambições que, sem aggravo do Senhor, cada um podia nutrir no seu coração. A do tabellião Justino era uma quintasinha no Minho, com roseiras e com parreiras, onde elle pudesse acabar a velhice, em mangas de camisa, e quietinho.

—Olhe, Justino, disse a titi, uma coisa que lhe havia de fazer falta era a sua missa na Conceição Velha… Quando a gente se acostuma a uma missinha, não ha outra que console… A mim, se me tirassem a de Sant'Anna, parece-me que começava a definhar…

Era o padre Pinheiro que a celebrava; a titi, enternecida, collocou-lhe no prato outra aza de gallinha;—e padre Pinheiro revelou tambem a ambição que o pungia. Era elevada e santa. Queria vêr o Papa restaurado n'esse throno forte e fecundo em que resplandecera Leão X…

—Se ao menos houvesse mais caridade com elle! exclamou a titi. Mas o Santissimo Padre, o vigariosinho de Nosso Senhor, assim n'uma masmorra, em farrapos, sobre palha… É de Caipházes, é de judeus!

Bebeu um gole da sua agua morna, e recolheu-se ao retiro da sua alma—a rezar a Ave-Maria que sempre offertava pela saude do Pontifice e pelo termo do seu captiveiro.

O dr. Margaride consolou-a. Não acreditava que o Pontifice dormisse sobre palhas. Viajantes esclarecidos afiançavam-lhe até que o Santo Padre, querendo, podia ter carruagem.

—Não é tudo; está longe de ser tudo o que compete a quem usa a tiára; mas uma carruagem, minha senhora, é uma grandissima commodidade…

Então o nosso Casimiro, risonho, desejou saber (já que todos patenteavam as suas ambições) qual era a do douto, do eminente dr. Margaride.

—Diga lá a sua, dr. Margaride, diga lá a sua! clamaram todos, com affecto.