—Ora venha cá, venha cá! disse elle, mal eu assomei curvando o espinhaço. Ouça lá a novidade! Que você é uma joia, respeitador de velhos, e tudo merece de Deus e da senhora sua tia. Chegue-se cá, venha de lá esse abraço!
Sorri, inquieto. A titi enrolava o seu caderno.
—Theodorico! começou ella, cruzando os braços, impertigada. Theodorico! tenho estado aqui a consultar com o snr. padre Casimiro. E estou decidida a que alguem que me pertença, e que seja do meu sangue, vá fazer por minha intenção uma peregrinação á Terra Santa…
—Hein, felizão! murmurou Casimiro, resplandecendo.
—Assim, proseguiu a titi, está entendido e ficas sabendo que vaes a Jerusalem e a todos os divinos lugares. Escusas de me agradecer, é para meu gosto, e para honrar o tumulo de Jesus Christo, já que eu lá não posso ir… Como, louvado seja Nosso Senhor, não me faltam os meios, has de fazer a viagem com todas as commodidades; e para não estar com mais duvidas, e pela pressa d'agradar a Nosso Senhor, ainda has de partir n'este mez… Bem, agora vai, que eu preciso conversar com o snr. padre Casimiro. Obrigado, não quero nada para o snr. S. Roque: já me entendi com elle.
Balbuciei: «Muito agradecido, titi; adeusinho, padre Casimiro.» E segui pelo corredor, atordoado.
No meu quarto corri ao espelho a contemplar, pasmado, este rosto e estas barbas, onde em breve pousaria o pó do Jerusalem… Depois, cahi sobre o leito.
—Olha que tremenda espiga!
Ir a Jerusalem! E onde era Jerusalem? Recorri ao bahú que continha os meus compendios e a minha roupa velha; tirei o Atlas, e com elle aberto sobre a commoda, diante da Senhora do Patrocinio, comecei a procurar Jerusalem lá para o lado onde vivem os Infieis, ondulam as escuras caravanas, e uma pouca d'agua n'um poço é como um dom precioso do Senhor.
O meu dedo errante sentia já o cansaço d'uma longa jornada: e parei á beira tortuosa d'um rio que devia ser o devoto Jordão. Era o Danubio. E de repente o nome de Jerusalem surgiu, negro, n'uma vasta solidão branca, sem nomes, sem linhas, toda de arêas, nua, junto ao mar. Alli estava Jerusalem. Meu Deus! Que remoto, que ermo, que triste!