—Cavalheiro! Ainda ha aqui roupa suja!

Rebuscando, entre os cobertores revoltos, descobrira uma longa camisa de rendas, com laços de sêda clara. Sacudia-a; e espalhava-se um aroma saudoso de violeta e d'amor… Ai! era a camisa de dormir da Mary, quente ainda dos meus abraços!

—Pertence á snr.^a D. Mary! É a tua camisinha, amor! gemi eu, cruzando os suspensorios.

A minha luveirinha ergueu-se, tremula, descórada—e teve um poetico rasgo de paixão. Enrolou a sua camisinha, atirou-m'a para os braços, tão ardentemente, como se entre as dobras viesse tambem o seu coração.

—Dou-t'a, Theodorico! Leva-a, Theodorico! Ainda está amarrotada da nossa ternura!… Leva-a para dormires com ella ao teu lado, como se fosse commigo… Espera, espera ainda, amor! Quero pôr-lhe uma palavra, uma dedicatoria!

Correu á mesa, onde jaziam restos do papel sisudo em que eu escrevia á titi a historia edificativa dos meus jejuns em Alexandria, das noites consumidas a embeber-me do Evangelho… E eu, com a camisinha perfumada nos braços, sentindo duas bagas de pranto rolarem-me pelas barbas, procurava angustiosamente em redor onde guardar aquella preciosa reliquia d'amor. As malas estavam fechadas. O sacco de lona estalava, repleto.

Topsius, impaciente, tirára das profundezas do seio o seu relogio de prata. O nosso Lacedemonio, á porta, rosnava:

D. Theodorico, es tarde, es mui tarde

Mas a minha bem-amada já sacudia o papel, coberto das letras que ella traçára, largas, impetuosas e francas como o seu amor: «Ao meu Theodorico, meu portuguezinho possante, em lembrança do muito que gozámos

—Oh, riquinha! E onde hei de eu metter isto? Eu não hei de levar a camisa nos braços, assim núa e ao léo!