Assim marchando, chegámos ao alto do monte—onde uma palmeira se desgrenhava sobre um abysmo cheio de mudez e de treva. Defronte de nós, muito longe, o céo desdobrava-se como um vasto estofo amarello: e sobre esse fundo vivo, côr de gema d'ovo, destacava um negrissimo outeiro, tendo cravadas no alto tres cruzinhas em linha, finas e d'um só traço. O Diabo, depois de escarrar, murmurou, travando-me da manga: «A do meio é a de Jesus, filho de José, a quem tambem chamam o Christo; e chegamos a tempo para saborear a Ascensão.» Com effeito! A cruz do meio, a do Christo, desairragada do outeiro, como um arbusto que o vento arranca, começou a elevar-se, lentamente, engrossando, atravancando o céo. E logo de todo o espaço voaram bandos de anjos, a sustel-a, apressados como as pombas quando acodem ao grão; uns puxavam-na de cima, tendo-lhe amarrado ao meio longas cordas de sêda; outros, de baixo, empurravam-na—e nós viamos o esforço entumecido dos seus braços azulados. Por vezes do madeiro desprendia-se, como uma cereja muito madura, uma grossa gotta de sangue: um seraphim recolhia-a nas mãos e ia collocal-a sobre a parte mais alta do céo, onde ella ficava suspensa e brilhando com o resplendor d'uma estrella. Um ancião enorme de tunica branca, a que mal distinguiamos as feições, entre a abundancia da coma revolta e os flocos de barbas nevadas, commandava, estirado entre nuvens, estas manobras da Ascensão, n'uma lingua semelhante ao latim e forte como o rolar de cem carros de guerra. Subitamente tudo desappareceu. E o Diabo, olhando para mim, pensativo: «Consummatum est, amigo! Mais outro Deus! Mais outra Religião! E esta vai espalhar em terra e céo um inenarravel tedio.»

E logo, levando-me pela collina abaixo, o Diabo rompeu a contar-me animadamente os Cultos, as Festas, as Religiões que floreciam na sua mocidade. Toda esta costa do Grande Verde, então, desde Byblos até Carthago, desde Eleusis até Memphis, estava atulhada de deuses. Uns deslumbravam pela perfeição da sua belleza, outros pela complicação da sua ferocidade. Mas todos se misturavam á vida humana, divinisando-a: viajavam em carros triumphaes, respiravam as flôres, bebiam os vinhos, defloravam as virgens adormecidas. Por isso eram amados com um amor que não mais voltará: e os povos, emigrando, podiam abandonar os seus gados ou esquecer os rios onde tinham bebido—mas levavam carinhosamente os seus deuses ao collo. «O amigo, perguntou elle, nunca esteve em Babylonia?» Ahi todas as mulheres, matronas ou donzellas, se vinham um dia prostituir nos bosques sagrados, em honra da deusa Mylitta. As mais ricas chegavam em carros marchetados de prata, puxados a búfalos, e escoltadas d'escravas; as mais pobres traziam uma corda ao pescoço. Umas, estendendo um tapete na herva, agachavam-se como rezes pacientes; outras, erguidas, núas, brancas, com a cabeça escondida n'um véo preto, eram como esplendidos marmores entre os troncos dos alamos. E todas assim esperavam que qualquer, atirando-lhe uma moeda de prata, lhes dissesse: «Em nome de Venus!» Seguiam-no então, fosse um principe vindo de Suza com tiara de perolas, ou o mercador que desce o Euphrates no seu barco de couro: e toda a noite rugia na escuridão das ramagens o delirio da Luxuria ritual. Depois o Diabo disse-me as fogueiras humanas de Molok, os Mysterios da Boa-Deusa em que os lirios se regavam com sangue, e os ardentes funeraes d'Adonis…

E parando, risonhamente: «o amigo nunca esteve no Egypto?» Eu disse-lhe que estivera e conhecera lá Maricocas. E o Diabo, cortez: «Não era Maricocas, era Isis!» Quando a inundação chegava até Memphis, as aguas cobriam-se de barcas sagradas, Uma alegria heroica, subindo para o sol, fazia os homens iguaes aos deuses. Osiris, com os seus cornos de boi, montava Isis; e, entre o estridor das harpas de bronze, ouvia-se por todo o Nilo o rugido amoroso da Vacca divina.

Depois o Diabo contava-me como brilhavam, dôces e bellas, na Grecia as religiões da Natureza. Ahi tudo era branco, polido, puro, luminoso e sereno: uma harmonia sahia das fórmas dos marmores, da constituição das cidades, da eloquencia das academias e das destrezas dos athletas: por entre as ilhas da Ionia, fluctuando na molleza do mar mudo como cestas de flôres, as Nereidas dependuravam-se da borda dos navios, para ouvir as historias dos viajantes; as Musas, de pé, cantavam pelos valles: e a belleza de Venus era como uma condensação da belleza da Hellenia.

Mas apparecera este carpinteiro de Galilêa—e logo tudo acabára! A face humana tornava-se para sempre pallida, cheia de mortificação: uma cruz escura, esmagando a terra, seccava o esplendor das rosas, tirava o sabor aos beijos:—e era grata ao deus novo a fealdade das fórmas.

Julgando Lucifer entristecido, eu procurava consolal-o: «Deixe estar, ainda ha de haver no mundo muito orgulho, muita prostituição, muito sangue, muito furor! Não lamente as fogueiras de Molok. Ha de ter fogueiras de judeus.» E elle, espantado: «Eu? Uns ou outros, que me importa, Raposo? Elles passam, eu fico!»

Assim, despercebido, a conversar com Satanaz, achei-me no campo de Sant'Anna. E tendo parado, emquanto elle desenvencilhava os cornos dos ramos d'uma das arvores—ouvi de repente ao meu lado um berro: «Olha o Theodorico com o Porco-sujo!» Voltei-me. Era a titi! A titi, livida, terrivel, erguendo, para me espancar, o seu livro de missa! Coberto de suor—acordei.

Topsius gritava, á porta do beliche, alegremente:

—Levante-se, Raposo! Estamos á vista da Palestina!

O Caimão parára; e no silencio eu sentia a agua roçando-lhe o costado, de leve, n'um murmurio de mansa caricia. Porque sonhára eu assim, ao avisinhar-me de Jerusalem, com os Deuses falsos, Jesus seu vencedor, e o Demonio a todos rebelde? Que suprema revelação me preparava o Senhor?…