Consolados, parámos n'uma fonte de marmore vermelho e negro, abrigada á sombra de sycomoros onde arrulhavam rôlas: ao lado erguia-se uma tenda, com um tapete na relva coberto d'uvas e de malgas de leite; e o velho de barbas brancas que a occupava saudou-nos em nome de Allah, com a nobreza de um patriarcha. A cerveja tinha-me feito sêde: foi uma rapariga bella como a antiga Rachel, que me deu a beber do seu cantaro de fórma biblica, sorrindo, com o seio descoberto, duas longas argolas d'ouro batendo-lhe a face morena—e um cordeirinho branco e familiar preso da ponta da tunica.

A tarde descia, muda e dourada, quando penetrámos na planicie de Saron, que a Biblia outr'ora encheu de rosas. No silencio tilintavam os chocalhos d'um rebanho de cabras negras, que um arabe ia pastoreando, nú como um S. João. Lá ao fundo, os montes sinistros da Judêa, tocados pelo sol obliquo que se afundava sobre o mar de Tyro, pareciam ainda formosos, azues e cheios de doçura de longe, como as illusões do peccado. Depois tudo escureceu. Duas estrellas de um resplendor infinito appareceram:—e começaram a caminhar adiante de nós para os lados de Jerusalem.

* * * * *

O nosso quarto, no Hotel do Mediterraneo, em Jerusalem, com a sua abobada caiada de branco, o chão de tijolo, semelhava uma rigida cella de rude mosteiro. Mas, fronteiro á janella, um tabique delgado, revestido de papel de ramagens azues, dividia-o d'outro quarto, onde nós sentiamos uma voz fresca cantarolar a Ballada do rei de Thule: e ahi, exhalando conforto e civilisação, brilhava um guarda-roupa de mogno, que eu abri, como se abre um relicario, para encerrar o meu embrulhinho bemdito.

Os dois leitosinhos de ferro desappareciam sob as pregas virginaes dos cortinados de cambraia branca; e ao meio havia uma mesa de pinho, onde Topsius estudava o mappa da Palestina, emquanto eu, de chinelos, passeava, limando as unhas. Era a devota sexta-feira em que a christandade commemora, enternecida, os SS. Martyres d'Evora. Nós tinhamos chegado n'essa tarde, sob uma chuva triste e miuda, á cidade do Senhor: e de vez em quando Topsius, erguendo os oculos de cima das estradas de Galilêa, contemplava-me de braços cruzados e murmurava com amizade:

—Ora está o amigo Raposo em Jerusalem!

Eu, parando ao espelho, dava um olhar ás barbas crescidas, á face crestada, e murmurava tambem, agradado:

—É verdade, cá está o bello Raposo em Jerusalem!

E voltava, insaciado, a admirar através dos vidros baços a divina Sião. Sob a chuva melancolica erguiam-se defronte as paredes brancas d'um convento silencioso, com as persianas verdes corridas, e duas enormes goteiras de zinco a cada esquina, uma escoando-se ruidosamente sobre uma viella deserta—a outra cahindo no chão molle d'uma horta plantada de couves, onde orneava um jumento. D'esse lado, era uma vastidão infindavel de telhados em terraço, lugubres e côr de lodo, com uma cupulasinha de tijolo em fórma de forno, e longas varas para seccar farrapos; e quasi todos decrepitos, desmantelados, miserrimos, pareciam desfazer-se na agua lenta que os alagava. Do outro elevava-se uma encosta atulhada de casebres sordidos, com verduras de quintal, esfumadas, arripiadas na nevoa humida: por entre elles, torcia-se uma viella esgalgada, em escadinhas, onde constantemente se cruzavam frades de alpercatas sob os seus guardachuvas, sombrios judeus de melenas cahidas, ou algum vagoroso beduino arregaçando o seu albornós… Por cima pesava o céo pardacento. E assim da minha janella me apparecia a velha Sião, a bem-edificada, brilhante de claridade, alegria da terra, e formosa entre as cidades.

—Isto é um horror, Topsius! Bem dizia o Alpedrinha! Isto é peor que
Braga, Topsius! E nem um passeio, nem um bilhar, nem um theatro! nada!
Olha que cidade para viver Nosso Senhor!