—Irra, caramba, larga-me, animal!
E foi assim, praguejando, que me precipitei, com o guardachuva a pingar, dentro do santuario sublime onde a Christandade guarda o tumulo do seu Christo. Mas logo estaquei, surprehendido, sentindo um delicioso e grato aroma de tabaco da Syria. N'um amplo estrado, afofado em divan, com tapetes da Caramania e velhas almofadas de sêda, reclinavam-se tres turcos, barbudos e graves, fumando longos cachimbos de cerejeira. Tinham dependurado na parede as suas armas. O chão estava negro dos seus escarros. E, diante, um servo em farrapos esperava, com uma taça fumegante de café, na palma de cada mão.
Pensei que o Catholicismo, previdente, estabelecera á porta do lugar divino uma Loja de bebidas e aguas-ardentes, para conforto dos seus romeiros. Disse baixo a Potte:
—Grande idéa! Parece-me que tambem vou tomar um cafésinho!
Mas logo o festivo Potte me explicou que esses homens sérios, de cachimbo, eram soldados musulmanos policiando os altares christãos, para impedir que em torno ao mausoleu de Jesus se dilacerem por superstição, por fanatismo, por inveja de alfaias, os Sacerdocios rivaes que alli celebram os seus Ritos rivaes—Catholicos como o padre Pinheiro, Gregos orthodoxos para quem a cruz tem quatro braços, Abissynios e Armenios, Coptas que descendem dos que outr'ora em Memphis adoravam o boi Apis, Nestorianos que veem da Chaldêa, Georgianos que veem do mar Caspio, Maronitas que veem do Libano,—todos christãos, todos intolerantes, todos ferozes!… Então saudei com gratidão esses soldados de Mahomet que, para manter o recolhimento piedoso em torno do Christo Morto, serenos e armados velam á porta, fumando.
Logo á entrada parámos diante d'uma lapide quadrada, incrustada nas lages escuras, tão polida e reluzindo com um tão dôce brilho de nacar que parecia a agua quieta d'um tanque onde se reflectiam as luzes das lampadas. Potte puxou-me a manga, lembrou-me que era costume beijar aquelle pedaço de rocha, santa entre todas, que outr'ora, no jardim de José d'Arimathêa…
—Bem sei, bem sei… Beijo, Topsius?
—Vá beijando sempre, disse-me o prudente historiographo dos Herodes.
Não se lhe péga nada; e agrada á senhora sua tia.
Não beijei. Em fila e calados, penetrámos n'uma vasta cupula, tão esfumada no crepusculo que o circulo de frestas redondas na cimalha brilhava apenas, pallidamente, como um aro de perolas em torno de uma tiara: as columnas que a sustentavam, finas e juntas como as lanças d'uma grade, riscavam a sombra em redor—cada uma picada pela mancha vermelha e mortal d'uma lampada de bronze. Ao centro do lagedo sonoro elevava-se, espelhado e branco, um Mausoleu de marmore—com lavores e com florões: um velho, pano de damasco cobria-o como um toldo, recamado de bordados d'ouro esvaído: e duas alas de tocheiros faziam-lhe uma avenida de lumes funerarios até á porta, estreita como uma fenda, tapada por um trapo côr de sangue. Um padre armenio que desapparecia sob o seu amplo manto negro, sob o capuz descido, incensava-o, dormente e mudamente.
Potte puxou-me outra vez pela manga: