E muito digno, coxeando, voltei ao quarto a fazer pacientes fricções d'arnica. Assim eu passei a minha primeira noite em Sião.

Ao outro dia cedo o profundo Topsius foi peregrinar ao monte das Oliveiras, á fonte clara de Siloé. Eu, dorido, não podendo montar a cavallo, fiquei no sofá de riscadinho com o Homem dos tres calções. E até para evitar o affrontoso barbaças não desci ao refeitorio, pretextando tristeza e langor. Mas ao mergulhar o sol no mar de Tyro—estava restabelecido e vivaz: Potte preparára para essa noite uma festividade sensual em casa da Fatmé, matrona bem acolhedoura, que tinha no Bairro dos Armenios um dôce pombal de pombas: e nós iamos lá contemplar a gloriosa bailadeira da Palestina, a Flôr de Jerichó, a saracotear essa dansa da Abelha, que esbrazêa os mais frios e deprava os mais puros…

A recatada portinha da Fatmé, ornada d'um pé de vinha secca, abria-se ao canto d'um muro negro junto á Torre de David. Fatmé esperava-nos, magestosa e obesa, envolta em véos brancos, com fios de coraes entre as tranças, os braços nús—tendo cada um a cicatriz escura de um bubão de peste. Tomou-me submissamente a mão, levou-a á testa oleosa, levou-a aos labios empastados d'escarlate, e conduziu-me em ceremonia defronte d'uma cortina preta, franjada d'ouro como o pano d'um esquife. E eu estremeci, ao penetrar emfim nos segredos deslumbradores d'um serralho mudo e cheirando a rosa.

Era uma sala caiada de fresco, com sanefas de algodão vermelho encimando a gelosia; e ao longo das paredes corria um divan amassado, revestido de sêda amarella, com remendos de sêda mais clara. N'um bocado de tapete da Persia pousava um brazeiro de latão, apagado, sob o montão de cinzas; ahi ficára esquecido um pantufo de velludo, estrellado de lentejoulas. Do tecto de madeira alvadia, onde se alastrava uma nodoa de humidade, pendia de duas correntes enfeitadas de borlas um candieiro de petroline. Um bandolim dormia a um canto, entre almofadas. No ar morno errava um cheiro adocicado e molle a mofo e a benjoim. Pelos ladrilhos, por baixo dos poaiaes da gelosia, corriam carochas.

Sentei-me sisudamente ao lado do historiador dos Herodes. Uma negra de Dongola, encamisada de escarlate, com braceletes de prata a tilintar nos braços, veio offerecer-nos um café aromatico: e quasi immediatamente Topsius appareceu, descorçoado, dizendo que não podiamos saborear a famosa dansa da Abelha! A Rosa de Jerichó fôra bailar diante de um principe de Allemanha, chegado n'essa manhã a Sião, a adorar o tumulo do Senhor. E Fatmé apertava com humildade o coração, invocava Allah, dizia-se nossa escrava! Mas era uma fatalidade! A Rosa de Jerichó fôra para o principe louro que viera, com cavallos e com plumas, do paiz dos Germanos!…

Eu, despeitado, observei que não era um principe: mas minha tia tinha luzidas riquezas: os Raposos primavam pelo sangue no fidalgo Alemtejo. Se Flôr de Jerichó estava ajustada para regosijar meus olhos catholicos, era uma desconsideração tel-a cedido ao romeiro couraçado que viera da hereje Allemanha…

O erudito Topsius resmungou, alçando o bico com petulancia, que a
Allemanha era a mãi espiritual dos povos…

—O brilho que sae do capacete allemão, D. Raposo, é a luz que guia a humanidade!

—Sebo para o capacete! A mim ninguem me guia! Eu sou Raposo, dos
Raposos do Alemtejo!… Ninguem me guia senão Nosso Senhor Jesus
Christo… E em Portugal ha grandes homens! Ha Affonso Henriques, ha o
Herculano… Sebo!

Ergui-me, medonho. O sapientissimo Topsius tremia, encolhido. Potte acudiu: