—Um arbusto d'espinhos? murmurava, estancando o suor. Ha de ser o Nabka… Banalissimo em toda a Syria! Hasselquist, o botanico, pretende que d'ahi se fez a Corôa d'Espinhos… Tem umas folhinhas verdes, muito tocantes, em fórma de coração, como as da hera… Ah, não tem? Perfeitamente, então é o Lycium Spinosum. Foi o que serviu, segundo a tradição latina, para a Corôa d'Injuria… Que quanto a mim a tradição é futil; e Hasselquist ignaro, infinitamente ignaro… Mas eu vou já aclarar isso, D. Raposo. Aclarar irrefutavelmente e para sempre!
Abalámos. No ermo, ante a arvore medonha, Topsius, alçando cathedraticamente o bico, recolheu um momento aos depositos interiores do seu saber—e depois declarou que eu não podia levar a minha tia devotissima nada mais precioso. E a sua demonstração foi faiscante. Todos os instrumentos da Crucificação (disse elle, floreando o guardasol), os Pregos, a Esponja, a Cana Verde, um momento divinisados como materiaes da Divina Tragedia, reentraram pouco a pouco, pelas urgencias da civilisação, nos usos grosseiros da vida… Assim, o Prego não ficou per eternum na ociosidade dos altares, memorando as Chagas Sacratissimas: a humanidade, catholica e commerciante, foi gradualmente levada a utilisar o prego como uma valiosa ferragem: e tendo trespassado as mãos do Messias, elle hoje segura, laborioso e modesto, as tampas de caixões impurissimos… Os mais reverentes irmãos do Senhor dos Passos empregam a Cana para pescar; ella entra na folgante composição do foguete; e o Estado mesmo (tão escrupuloso em materia religiosa) assim a usa em noites alegres de nova Constituição ou em festivos delirios pelas bodas de Principes… A Esponja, outr'ora embebida no vinagre de sarcasmo e offerecida n'uma lança, é hoje aproveitada n'esses irreligiosos ceremoniaes da limpeza—que a Igreja sempre reprovou com odio… Até a Cruz, a Fórma suprema, tem perdido entre os homens a sua divina significação. A christandade, depois de a ter usado como lábaro, usa-a como enfeite. A cruz é broche, a cruz é breloque; pende nos collares, tilinta nas pulseiras; é gravada em sinetes de lacre, é incrustada em botões de punho;—e a Cruz realmente n'este soberbo seculo pertence mais á Ourivesaria do que pertence á Religião…
—Mas a Corôa d'Espinhos, D. Raposo, essa não tornou a servir para mais nada!
Sim, para mais nada! A Igreja recebeu-a das mãos de um proconsul romano—e ella ficou isoladamente e para toda a eternidade na Igreja, commemorando o Grande Ultraje. Em todo este vario Universo ella só encontra um lugar congenere na penumbra das capellas; o seu unico prestimo é persuadir á contrição. Nenhum joalheiro jámais a imitou em ouro, cravejada de rubis, para ornar um penteado loiro; ella é só Instrumento de Martyrio; e com salpicos de sangue, sobre os caracoes frisados das imagens, inspira infinitamente as lagrimas… O mais astuto Industrial, depois de a retorcer pensativamente nas mãos, restituil-a-hia aos altares como coisa inutil na Vida, no Commercio, na Civilisação; ella é só attributo da Paixão, recurso de tristes, enternecedora de fracos. Só ella, entre os accessorios da Escriptura, provoca sinceramente a oração. Quem, por mais adorabundo, se prostraria, a borbulhar de Padre-Nossos, diante d'uma esponja cahida n'uma tina, ou d'uma cana á beira d'um regato?… Mas para a Corôa d'Espinhos erguem-se sempre as mãos crentes; e a sensação da sua deshumanidade passa ainda na melancolia dos Misereres!
Que maior maravilha podia eu levar á titi?…
—Sim, Topsius, meu catita… Os teus dizeres são d'oiro puro… Mas a outra, a verdadeira, a que serviu, teria sido tirada d'aqui, d'este tronco? Hein, amiguinho?
O erudito Topsius desdobrou lentamente o seu lenço de quadrados: e declarou (contra a futil tradição latina e contra o ignarissimo Hasselquist) que a Corôa d'Espinhos fôra arranjada d'uma silva, fina e flexivel, que abunda nos valles de Jerusalem, com que se accende o lume, com que se erriçam as sebes, e que dá uma flôrzinha rôxa, triste e sem cheiro…
Eu murmurei, succumbido:
—Que pena! A titi fazia tanto gosto que fosse d'aqui, Topsius! A titi é tão rica!…
Então este sagaz philosopho comprehendeu que ha Razões de Familia como ha Razões d'Estado—e foi sublime. Estendeu a mão por cima da arvore, cobrindo-a assim largamente com a garantia da sua sciencia—e disse estas palavras memoraveis: