—D. Raposo! Esta aurora que vae nascer, e em pouco tocar os cimos do Hebron, é a de 15 do mez de Nizam; e não houve em toda a historia d'Israel, desde que as tribus voltaram de Babylonia, nem haverá, até que Tito venha pôr o ultimo cêrco ao Templo, um dia mais interessante! Eu preciso estar em Jerusalem para vêr, viva e rumorejando, esta pagina do Evangelho! Vamos pois fazer a santa Paschoa a casa de Gamaliel, que é um amigo d'Hillel, e um amigo meu, um conhecedor das letras gregas, patriota forte e membro do Sanhedrin. Foi elle que disse: «para te livrares do tormento da duvida, impõe-te uma auctoridade.» Portanto, a pé, D. Raposo!
Assim murmurou o meu amigo, erecto e lento. E eu, submissamente, como perante um mandamento celeste, comecei a enfiar em silencio as minhas grossas botas de montar. Depois, apenas me agasalhei no albornoz, elle empurrou-me com impaciencia para fóra da tenda—sem mesmo me deixar recolher o relogio e a faca sevilhana, que todas as noites, cauteloso, eu guardava debaixo do travesseiro. A luz da vela esmorecia, fumarenta e vermelha…
Devia ser meia noite. Dois cães ladravam ao longe, surdamente, como entre frondosos muros de quintas. O ar macio e ermo cheirava a rosas de vergel e á flôr da laranjeira. O ceu d'Israel faiscava com desacostumado esplendor: e em cima do monte Nebo, um bello astro mais branco, d'uma refulgencia divina, olhava para mim, palpitando anciosamente, como se procurasse, captivo na sua mudez, dizer um segredo á minha alma!
As egoas esperavam, immoveis sob as longas clinas. Montei. E então, emquanto Topsius arranjava laboriosamente os loros, avistei para os lados da fonte d'Elyseo—uma fórma maravilhosa que me arripiou de terror transcendente.
Era, ao clarão diamantino das estrellas da Syria, como a branca muralha d'uma cidade nova! Frontões de templos alvejavam pallidamente entre a espessura de bosques sagrados; para as collinas distantes fugiam esbatidos os arcos ligeiros d'um aqueducto. Uma chamma fumegava no alto d'uma torre; mais baixo, movendo-se, faiscavam pontas de lanças; um som longo de bozina morria na sombra… E abrigada junto aos bastiões uma aldêa dormia entre palmeiras.
Topsius, na sella, prompto a marchar, embrulhára a mão nas clinas da egoa.
—Aquillo, branco, além? murmurei, suffocado.
Elle disse simplesmente:
—Jericó.
Rompeu, galopando. Não sei quanto tempo segui, emmudecido, o nobre historiador dos Herodos: era por uma estrada direita, feita de lages negras de basalto. Ah! que differente do aspero caminho por onde tinhamos descido a Canaan, faiscante e côr de cal, através de collinas onde o tojo escasso semelhava, na irradiação da luz, um bolor de velhice e de abandono! E tudo em redor me parecia differente tambem, a fórma das rochas, o cheiro da terra quente, até a palpitação das estrellas… Que mudança se fizera em mim, que mudança se fizera no Universo? Por vezes uma faisca dura saltava das ferraduras das egoas. E sem descontinuar Topsius galopava, agarrado ás clinas, com as duas bandas da capa branca batendo como os dois panos de uma bandeira…