—Coisas infinitamente habeis, murmurou Topsius. É um pedante, mas tem razão. Diz que o Pretor não é um judeu; que nada sabe de Jehovah, nem lhe importam os prophetas que se erguem contra Jehovah; e que a espada de Cesar não vinga deuses que não protegem Cesar!… O romano é engenhoso!
Offegando, o Assessor recahiu languidamente no escabello. E logo Sarêas volveu a arengar, sacudindo os braços para a multidão dos Phariseus, como a evocar os seus protestos, e refugiando-se na sua força. Agora, mais retumbante, accusava Jesus, não da sua revolta contra Jehovah e o Templo, mas das suas pretenções como principe da casa de David! Toda a gente em Jerusalem o tinha visto, havia quatro dias, entrar pela Porta d'Ouro, n'um falso triumpho, entre palmas verdes, cercado d'uma multidão de galileus, que gritavam—«Hossana ao filho de David, Hossana ao rei d'Israel!…»
—Elle é o filho de David, que vem para nos tornar melhores! gritou ao longe a voz de Gad, cheia de persuasão e d'amor.
Mas de repente Sarêas collou ao corpo as mangas franjadas, mudo e mais teso que um conto de lança: o escriba romano, de pé, com os punhos fincados na mesa, vergava o cachaço reverente e nedio: o Assessor sorria, attento. Era o Pretor que ia interrogar o Rabbi: e eu, tremendo, vi um Legionario empurrar Jesus que ergueu a face…
Debruçado de leve para o Rabbi, com as mãos abertas que pareciam soltar, deixar cahir todo o interesse por esse pleito ritual de sectarios arguciosos, Poncius murmurou, enfastiado e incerto:
—És tu então o rei dos judeus?… Os da tua nação trazem-te aqui!…
Que fizeste tu?… Onde é o teu reino?
O interprete, enfatuado, perfilado junto ao sólio de marmore, repetiu muito alto estas coisas na antiga lingua hebraica dos Livros Santos: e, como o Rabbi permanecia silencioso, gritou-as na falla chaldaica que se usa em Galilêa.
Então Jesus deu um passo. Eu ouvi a sua voz. Era clara, segura, dominadora e serena:
—O meu reino não é d'aqui! Se por vontade de meu Pai eu fosse rei de Israel, não estaria diante de ti com esta corda nas mãos… Mas o meu reino não é d'este mundo!
Um grito estrugiu, desesperado: