—Eu interroguei o vosso preso, disse elle; e não lhe achei culpa que deva punir o Procurador da Judêa… Antipas Herodes, que é prudente e forte, que pratíca a vossa Lei e ora no vosso Templo, interrogou-o tambem e nenhuma culpa n'elle encontrou… Esse homem diz apenas coisas incoherentes como os que fallam em sonhos… Mas as suas mãos estão puras de sangue; nem ouvi que elle escalasse o muro do seu visinho… Cesar não é um amo inexoravel… Esse homem é apenas um visionario.

Então, com um sombrio murmurio, todos recuaram, deixando Rabbi Robam só no limiar da sala romana. Um brilho de joia tremia na ponta da sua tiára: as suas cans cahindo sobre os vastos hombros coroavam-no de magestade como a neve faz aos montes: as franjas azues do seu manto solto rojavam nas lages, em redor. Devagar, sereno, como se explicasse a Lei aos seus discipulos, ergueu a mão e disse:

—Official de Cesar, Poncius, muito justo e muito sabio! O homem que tu chamas visionario, ha annos que offende todas as nossas leis e blasphema o nosso Deus. Mas quando o prendemos nós, quando t'o trouxemos nós? Sómente quando o vimos entrar em triumpho pela Porta d'Ouro, acclamado como rei da Judêa. Porque a Judêa não tem outro rei senão Tiberio: e apenas um sedicioso se proclama em revolta contra Cesar, apressamo-nos a castigal-o. Assim fazemos nós, que não temos mandado de Cesar, nem cobramos do seu erario: e tu, official de Cesar, não queres que seja castigado o rebelde a teu amo?…

A face larga de Poncius, que uma somnolencia amollecia, relampeou, raiada vivamente de sangue. Aquella tortuosidade de judeus que, execrando Roma, apregoavam agora um zêlo ruidoso por Cesar para poderem, em nome da sua auctoridade, saciar um odio sacerdotal—revoltou a rectidão do Romano: e a audaciosa admoestação foi intoleravel ao seu orgulho. Desabridamente exclamou, com um gesto que os sacudia:

—Cessai! Os procuradores de Cesar não vêm aprender a uma colonia barbara da Asia os seus deveres para com Cesar!

Manassés que ao meu lado, já impaciente, puxava a barba, afastou-se com indignação. Eu tremi. Mas o soberbo Rabbi proseguiu, mais indifferente á ira de Poncius do que ao balar d'um anho que arrastasse ás aras:

—Que faria o procurador de Cesar em Alexandria se um visionario descesse de Bubastes proclamando-se rei do Egypto? O que tu não queres fazer n'esta terra barbara da Asia! Teu amo dá-te a guardar uma vinha, e tu deixas que entrem n'ella e que a vindimem? Para que estás então na Judêa, para que está a sexta legião na torre Antonia? Mas o nosso espirito é claro, e a nossa voz é clara e alta bastante, Poncius, para que Cesar a ouça!…

Poncius deu um passo lento para a porta. E com os olhos faiscantes, cravados n'aquelles judeus que astutamente o iam enlaçando na trama subtil dos seus rancores religiosos:

—Eu não receio as vossas intrigas! murmurou surdamente. Elius Lamma é meu amigo!… E Cesar conhece-me bem!

—Tu vês o que não está nos nossos corações! disse Rabbi Robam, calmo como se conversasse á sombra do seu vergel. Mas nós vemos bem o que está no teu, Poncius! Que te importa a ti a vida ou a morte de um vagabundo de Galilêa?… Se tu não queres, como dizes, vingar deuses cuja divindade não respeitas, como pódes querer salvar um propheta cujas prophecias não crês?… A tua malicia é outra, romano! Tu queres a destruição de Judá!