Não sei se no Brazil existe isto. Em Portugal, nem em tal jámais se ouviu fallar. Apparece uma ou outra d'essas edições de luxo, de Pariz, de que fallei, e que constituem ornatos de sala. A França possue tambem uma litteratura infantil tão rica e util como a de Inglaterra: mas essa Portugal não a importa: livros para completar a mobilia, sim; para educar o espirito, não.

A Belgica, a Hollanda, a Allemanha, prodigalisam estes livros para creanças; na Dinamarca, na Suecia, elles são uma gloria da litteratura e uma das riquezas do mercado.

Em Portugal, nada.

Eu ás vezes pergunto a mim mesmo o que é que em Portugal lêem as pobres creanças. Creio que se lhes dá Filinto Elysio, Garção, ou outro qualquer desses mazorros sensaborões, quando os infelizes mostram inclinação pela leitura.

Isto é tanto mais atroz quanto a creança portuguesa é excessivamente viva, intelligente e imaginativa. Em geral, nós outros, os portuguezes, só começamos a ser idiotas—quando chegamos á edade da razão. Em pequenos, temos todos uma pontinha de genio: e estou certo que se existisse uma litteratura infantil como a da Suecia ou da Hollanda, para citar só paises tão pequenos como o nosso, erguer-se-hia consideravelmente entre nós o nivel intellectual.

Em logar d'isso, apenas a luz do entendimento se abre aos nossos filhos, sepultamol-a sob grossas camadas de latim! Depois do latim accumulamos a rhetorica! Depois da rhetorica atulhamol-a de logica (de logica, Deus piedoso!). E assim vamos erguendo até aos céus o monumento da camelice!

Pois bem; eu tenho a certeza que uma tal litteratura infantil penetraria facilmente nos nossos costumes domesticos e teria uma venda proveitosa. Muitas senhoras, intelligentes e pobres, se poderiam empregar em escrever essas faceis historias: não é necessario o genio de Zola ou de Thackeray para inventar o caso dos tres velhos sabios de Chester. Ha entre nós artistas, de lapis facil e engraçado, que commentariam bem essas aventuras n'um desenho de simples contorno, sem sombras e sem relevo, lavado a côres transparentes... E quantos milhares de creanças se fariam felizes, com esses bonitos livros—que, para serem populares e se poderem despedaçar sem prejuizo, devem custar menos de um tostão!

Eu bem sei que esta ideia de compôr livros para creanças faria rir Lisboa inteira. Tambem, não é a Lisboa que eu a offereço. Lisboa não se occupa d'estes detalhes.

Lisboa quer cousa superior; quer a bella estrophe lyrica, o rico drama em que se morre de paixão ao luar, o fadinho ao piano, o saboroso namoro de escada, a endeixa plangente, a bôa facadinha á meia noite, o discurso em que se cita o Golgotha, a andaluza de cuia—emfim, tudo o que o romantismo portuguez inventou de mais nobre. Educar os seus filhos intelligentemente, está decerto abaixo da sua dignidade.

Mas, emfim, se estas linhas animassem ahi no Brazil, ou entre a colonia portugueza, um escriptor, um desenhista e um editor, a prepararem alguns bons livros, bem engraçados, bem alegres, para os bébés—eu teria feito ao imperio um serviço colossal, que não sei como me poderia ser recompensado.