A sua grande testa sobre a qual cahiam aquelles dous extraordinarios caracóes parallelos, o seu olhar recolhido e como concentrado em pensamentos muito fundos, o nariz de pura raça israelita, a bocca descahida na sua eterna curva sarcastica, o beiço inferior muito recurvo e muito pendente, e a sua estranha pera de Mephistopheles—constituiam uma d'estas physionomias que se sente que vão ficar na galeria da historia e que servirão a futuros historiadores para explicar um destino e um genio. Em novo, e quando as modas romanticas o permittiam, vestia-se de setim e velludo, recobria-se d'um luxo de medalhões e joias, as suas proprias calças tinham bordados d'ouro. Agora era mais sobrio de toilette: usava apenas esses casacos compridos como tunicas, a que os homens de origem judaica são particularmente affeiçoados, e o seu unico adorno eram os bellos ramos que lhe enchiam o peito. Um jornalista francez, n'um dia de crise politica em que Lord Beaconsfield devia fazer um discurso decisivo, encontrou-o momentos antes, n'um dos salões da camara, occupado a encher d'agua o tubosinho de crystal que por traz da botoeira da casaca conservava frescas as suas rosas. Todo o homem está n'este traço.

De raça oriental, teve sempre o amor do fausto, das pedrarias, dos ricos tecidos, da pompa; os seus romances transbordam de descripções de palacios, de festas perante as quaes as mais ricas galas de Salomão são como desbotados scenarios de theatro de feira; o seu estylo resente-se d'este gosto: é um sumptuoso estofo, com recamos de ouro, cravejado de joias, scintillante e espesso, cahindo em belas pregas ao comprido da idéa. O dinheiro, o ouro, preoccuparam-n'o sempre, menos pela sua influencia social, que pelo mero esplendor da sua amontoação. Os seus heroes possuem fortunas tão prodigiosas que seriam impossiveis nas condições economicas do mundo moderno; Lothario, o famoso Lothario, querendo dar um presente de annos a uma senhora catholica, offerece-lhe uma cathedral toda de marmore branco, que elle mandou construir e que dedicou á santa do nome d'ella; o seu custo excederia decerto dois mil contos fortes. Confessemos que é chic. Pois bem; presentes d'estes dava-os Lothario todos os dias. O banqueiro Sidonia, uma das mais curiosas creações de Lord Beaconsfield, dando ao seu amigo Tancredo uma carta de credito para os banqueiros da Syria, redige-a d'este modo: «Pague á vista ao portador tanto ouro quanto seria necessario para reconstruir os quatro leões de ouro massiço que ornavam a porta direita do templo de Salomão.» Tambem muito chic.

Estou certo que um dos grandes prazeres de Lord Beaconsfield era poder manejar os milhões de Inglaterra. Todos os seus ministerios custaram caudalosos rios de dinheiro; gastava o ouro como a agua,—e dava-se ao luxo de realisar por si, e á custa do seu paiz, as larguezas epicas do seu banqueiro Sidonia. Mesmo quando estava no poder, estava ainda no romance.

As linhas da sua biographia são conhecidas. Seu pae era um d'estes litteratos mediocres e trabalhadores que vão desenterrando e colleccionando atravéz de in-folios e bibliothecas casos curiosos e archaicos de historia e de litteratura.

Benjamin Disraeli nasceu por isso entre os livros—litteralmente entre os livros, porque a casa em que viviam os Disraeli offerecia o espaço de uma boceta, e no quarto da creança, entre a accumulação vetusta dos calhamaços, havia apenas espaço para uma cadeira e para um berço. O velho Disraeli era judeu: mas felizmente para os destinos futuros de seu filho rompeu com a synagoga, e todos os Disraeli se fizeram christãos. Benjamin tinha então dezessete annos, e o seu padrinho na pia baptismal foi um certo Samuel Rogers, notavel por ser ao mesmo tempo um dos mais ricos banqueiros da City e um dos poetas mais elegiacos do seu tempo—e notavel ainda por não ficar na historia, nem como banqueiro, nem como poeta, mas como um requintado gourmet, o grande Lucullus de Londres, que deu os mais celebres, os mais finos jantares da Europa.

Assim marcado com o rotulo christão, Benjamin Disraeli largou a caminhar pela vida fóra, mas foi encalhar bem depressa n'um cartorio de tabellião—onde se diz que, durante dous annos, este moço orgulhoso, que já então se considerava um semi-deus, redigiu procurações e testamentos. Com a mesma penna, porém, ia escrevendo Vivian Grey: e da tempestuosa sensação que este romance produziu data a sua grande carreira. A obra, á parte algumas fugitivas scintillações de um genio ainda desequilibrado, é no seu conjunto, ao mesmo tempo pesada e vaga; mas satisfazia os gostos escandalosos e intrigantes da sociedade d'então, pondo em scena todas as individualidades marcantes de Londres, politicos, dandies, rainhas da moda, poetas, especuladores.

O melhor resultado de Vivian Grey, foi tornar Disraeli Junior (como elle então se assignava) o favorito de Lady Blenington e do conde d'Orsay, as duas dominantes figuras de Londres d'essa época, e que tinham de sociedade o mais selecto, mais intelligente, mais apetecido salão de Inglaterra.

Estes dous formavam um typo destinado a reinar. Lady Blenington era uma mulher de graciosa e olympica belleza, de uma extrema audacia de caracter e de alta energia intellectual. O conde d'Orsay, esse era o homem que durante vinte annos governou a moda, o gosto, as maneiras, com a mesma indisputada auctoridade com que hoje o principe de Bismarck arbitra na Europa.

Usar um modelo de gravata ou admirar um poeta que não tivessem sido aprovados pelo conde d'Orsay, seria correr o mesmo risco de uma nação que hoje, sem auctorização secreta do principe de Bismarck, organisasse uma expedição militar. Lady Blenington, entre outras coisas embaraçadoras, tinha uma filha: e o bello d'Orsay, não sei porque, nem elle o soube jámais, casou com essa menina. Os noivos vieram viver com Lady Blenington; e, bem depressa, entre seu brilhante marido e sua resplandecente mãe, a pobre condessa d'Orsay foi como uma pallida lampada bruxoleando entre dous astros. Fez então uma cousa sensata e espirituosa: apagou-se de todo, desappareceu. E o conde d'Orsay e Lady Blenington, livres d'aquella senhora que entristecia, regelava as salas com o seu ar honesto e frio, começaram então a scintillar tranquillamente, como constellações conjunctas no firmamento social de Londres. E Londres curvou-se deante d'esta nova e original situação domestica, como se curvava deante de uma nova sobrecasaca do conde d'Orsay, ou deante de uma decisão litteraria de Lady Blenington.

Benjamin Disraeli tornou-se bem depressa um dos heroes d'este salão—onde desde logo se mostrára com esse ar de tranquilla superioridade, de correcto desdem, que foi um dos segredos da sua força. Ordinariamente conservava-se calado, apoiado ao marmore da chaminé, n'uma pose d'Apollo melancholico, abandonando-se á caricia ambiente dos olhares das damas que viam n'elle a encarnação radiante do poetico Vivian Grey. As pessoas mais intimas, começando por Lady Blenington, já lhe chamavam sempre Vivian, querido Vivian. O conde d'Orsay fizera-lhe o retrato a sepia—honra que elle dava raramente, e a mais appetecida n'esse curioso mundo.