Tratando-se do Egypto, terra das antigas maldições, póde-se pensar, em presença de tal catastrophe, que passou por alli a colera de Jehovah—uma d'essas coleras de que ainda estremecem as paginas da Biblia, quando o Deus unico, vendo uma cidade cobrir-se da negra crosta do peccado, corria de entre as nuvens a cicatrizal-a pelo fogo, como uma chaga viva da Terra. Mas d'esta vez não foi Jehovah. Foi simplesmente o almirante inglez Sir Beauchamp Seymour, em nome da Inglaterra, e usando com vagar e methodo, por ordens do governo liberal do Sr. Gladstone, os seus canhões de oitenta toneladas.
Seria talvez deshonesto, de certo seria desproporcionado, o juntar aos nomes dos homens fortes que n'estes ultimos dous mil annos se têm arremessado sobre Alexandria e a têm deixado em ruinas,—aos nomes de Caracalla, o pagão, de Cyrillo, o santo, de Diocleciano, o perseguidor, e de Ben-Amon, o sanguinario—o nome de Sr. William Gladstone, o humanitario, o paladino das nacionalidades tyrannizadas, o apostolo da democracia christã. Mas se por um lado, evidentemente, a politica do snr. Gladstone não é um producto de pura ferocidade pessoal, como a de Caracalla, que fez arrasar Alexandria, porque um poeta d'essa cidade finmente dada ás letras o molestára n'um epigramma—por outro lado esta brusca aggressão de uma frota de doze couraçados, cidadellas de ferro fluctuando sobre as aguas, contra as decrepitas fortificações de Mehemet-Ali, este bombardeamento d'uma cidade egypcia, estando a Inglaterra em paz com o Egypto, parece-se singularmente com a politica primitiva do califa Omar ou dos imperadores persas, que consistia n'isto:—ser forte, cahir sobre o fraco, destruir vida e empolgar fazendas. D'onde se vê que isso a que se chama aqui a politica imperial d'Inglaterra, ou os interesses da Inglaterra no Oriente, póde levar um ministro christão a repetir os crimes d'um pirata mussulmano, e o snr. Gladstone, que é quasi um santo, a comportar-se pouco mais ou menos como Ben-Amon, que era inteiramente um monstro. Antes não ser ministro d'Inglaterra! E foi o que pensou o veneravel John Brigth, que, para não partilhar a cumplicidade d'esta brutal destruição d'uma cidade inoffensiva, deu a sua demissão do Gabinete, separou-se dos seus amigos de cincoenta annos, e foi modestamente occupar o seu velho banco de oposição...
Tudo o que se prende immediatamente com a aniquilação de Alexandria, é de facil historia, sobretudo, traçando-se só as linhas principaes, as unicas que pódem interessar quem está moral, e materialmente, a tres mil legoas do Egypto e das suas desgraças.
No principio de junho passado, o almirante inglez Sir Beauchamp Seymour achava-se nas aguas de Alexandria, commandando uma formidavel frota, e tendo ancorada ao seu lado uma esquadra franceza com o pavilhão do almirante Conrad. A França e a Inglaterra estavam alli com morrões accesos, vigiando Alexandria, de camaradagem, como tinham estado nos ultimos dous annos no Cairo, de penna atraz da orelha, fiscalisando, de camaradagem, as finanças egypcias: porque sabem, de certo, que, tendo o Egypto (endividado até ao alto das pyramides para com as burguezias financeiras de Pariz e Londres) omittido o pagamento de alguns coupons,—a França e a Inglaterra, protegendo maternalmente os interesses dos seus agiotas, installaram no Cairo dous cavalheiros, os srs. Coloin e Blegniéres, ambos com funcções de secretarios de fazenda no ministerio egypcio, ambos encarregados de colher a receita, geril-a e applicar-lhe a parte mais pingue á amortisação e juros da famosa divida egypcia!
De sorte que as duas bandeiras, de Inglaterra e da França, eram na realidade dous enormes papeis de credito, içados no tope dos couraçados. No almirante Seymour e no almirante Conrad reappareceram os dous burguezes, Coloin e Blegnières. E na bahia de Alexandria, perante o Egypto, um dos grandes fallidos do Oriente, as frotas unidas das duas altas civilisações do Occidente representavam simplesmente a usura armada.
Isto era assim na realidade. Officialmente, porém, os couraçados estavam alli fazendo uma demonstração naval, de facto realisando uma intervenção estrangeira—porque se tinham dado casos no Egypto e o Khediva declarara-se coacto. Todos os que conhecem a historia contemporanea de Portugal e de outros curiosos paizes constitucionaes sabem o que significa esta deliciosa phrase: El-rei está coacto! Isto quer dizer que Sua Magestade se acha em palacio, cercado de uma populaça carrancuda que agarrou em chuços, arranjou uma bandeira no alto de um páu, e vem impor esta fórmula prodigiosamente desagradavel para El-rei: diminuição de auctoridade regia e augmento de liberdade publica...
Se El-rei conserva por traz do palacio alguns regimentos fieis, enverga n'esse momento a farda de generalissimo, e manda acutilar o seu povo: se desgraçadamente, porém, os soldados estão unidos aos cidadãos, então El-rei declara-se coacto, e pede a um rei visinho, mais forte e menos atarantado, que lhe mande uma divisão, a restabelecer a ordem—isto é a assegurar a Sua Magestade a sua somma intacta d'autoridade regia, dispersando a tiro a tentativa de liberdade publica. Isto hoje, realmente, já se não usa na Europa: mas no Oriente, ao que parece, é ainda um methodo muito decente de acalmar os descontentamentos nacionaes.
O Khediva, esse excellente e pacato moço, tinha sido victima de um pronunciamento planeado, á maneira hespanhola, mas posto em scena á moda turca. Um coronel, Arabi-bey, que em breve ia ser o famoso Arabi-Pachá, apresentou-se com outros officiaes no palacio, e depois do salamalek, que na etiqueta turca consiste em beijar devotamente a aba da sobrecasaca do Khediva, como nós em Lisboa beijamos a tunica de Santo Antonio, lembrou a Sua Alteza a necessidade de fazer reformas, algumas puramente militares e em proveito dos coroneis, outras politicas, para bem da grande populaça fellah, e tão largas que constituiam uma mudança de regimen. Sua Alteza escutou, murmurou aquellas phrases sobre o amor da nação, a felicidade dos subditos, que o ceremonial indica nas occasiões d'atrapalhação regia e pareceu tão satisfeito com o interesse, que aquelles officiaes tomavam pela prosperidade do valle do Nilo, que os recompensou á maneira oriental—convidando-os a um banquete. Em torno da festiva mesa a cordealidade foi grande, o champagne espumou contra as prescripções do Alcorão, e entre o sabor das truffas e o aroma dos ramos, o futuro do Egypto appareceu côr de rosa... O café foi servido nos jardins: e quando d'um lado entravam os escudeiros com os licores, do outro surgiram beleguins com algemas. Arabi e os seus camaradas, levando ainda na bocca o ultimo charuto que lhes offerecera Sua Alteza, foram conduzidos ás palhas do carcere.
Não ha nada mais delicioso—nem mais turco.
A Europa toda, a quem agrada a energia, applaudiu com estrepito a energia de Sua Alteza!