Que espectaculo! Toda a verde superficie da Inglaterra está então, de norte a sul, salpicada de manchas negras. São congressos em deliberação. Ha-os de metaphysicos e ha-os de cosinheiros.
Aqui, duzentos individuos carrancudos e descontentes elaboram uma nova ordem social; além, uma multidão de sabios, acocorados, semanas inteiras, em torno de um objecto escuro, não pódem chegar á conclusão se é um tijolo vilmente recente ou uma laje da camara nupcial da rainha Ginevra; e adiante cavalheiros anafados e luzidios assentam a doutrina definitiva da engorda do leitão—esse amor!
Os congressos mais notaveis este anno fôram—o de medicina em Londres, a que assistiram mil e tresentos congressistas medicos e cirurgiões dos dois mundos e dos dois sexos, e onde se prometteu á humanidade, para d'aqui a annos, a suppressão das epidemias pelas vaccinas; o da British Association, a grande Sociedade das Sciencias (congresso annual celebrado este anno em York) em que o presidente, sir John Lubbock, esse amavel sabio que tem passado a existencia a estudar as civilizações inferiores dos insectos, laboriosas democracias de formigas, deploraveis oligarchias de abelhas—occupou-se d'esta vez, dando um balanço á sciencia durante os ultimos cincoenta annos, a mostrar algumas das estupendas habilidades d'esse outro ephemero insecto, o Homem: e emfim o congresso annual da Egreja, celebrado em Newcastle, composto de bispos, dignitarios ecclesiasticos, theologos, doutores em divindade, este largo clero anglicano, o mais douto e litterario da Europa. N'este, entre outros assumptos discutiu-se a Influencia da Arte na vida e no pensar religioso: mas, quanto a mim, o resultado mais nitido foi o revelar incidentalmente que a frequentação dos templos, em Inglaterra, diminue de um terço todos os dez annos, ao passo que o espirito de religiosidade cresce nas massas, tornando-se assim o sentimento religioso cada dia mais desprendido das fórmas caducas e pereciveis das religiões.
N'este momento ha outros congressos—o dos Metallurgistas, o das Sciencias Sociaes, o dos Telegraphistas, o Archeologico, o dos Gravadores, o dos... emfim, centenares. Até o dos Browninguistas. Não sabem o que são os Browninguistas? Uma vasta associação, tendo por fim estudar, commentar, interpretar, venerar, propagar, illustrar, divinisar as obras do poeta Browning. Isto, mesmo n'este paiz de arrebatados enthusiasmos intellectuais, me parece um pouco forte. Browning é sem duvida, com Shelley, Shakspeare e Milton, um dos quatro principes da poesia ingleza: mas tem o inconveniente de estar vivo. Elle proprio assiste, materialmente, com o seu paletot e o seu guarda chuva, ao congresso de que é objecto espiritual e assumpto: e fatalmente, pelo effeito mesmo da sua presença, a admiração litteraria tende a tornar-se idolatria pessoal, e os shake hands que elle distribue começam naturalmente a ser mais apreciados no congresso que os poemas que elle escreveu. Por isso mesmo que o divinisam, o amesquinham: não é então o grande poeta de Inglaterra, é o idolo particular dos Browninguistas, deixa assim de ser um espirito fallando a espiritos—para ser apenas um manipanso aterrorizando supersticiosos.
Mas, continuando com as estações, temos ainda a Yachting-Season, a estação nautica, das regatas, das viagens em yacht. Hoje em Inglaterra ter um yacht é, como entre nós montar carruagens, o primeiro dever social do rico ou do enriquecido, uma das fórmas mais triviaes do conforto luxuoso. Um yacht não é só um frágil e airoso barco de cincoenta toneladas e vela branca; póde ser tambem um negro e poderoso vapor de duas mil toneladas e sessenta homens de tripulação. N'este ultimo caso, em logar de bordejar gentilmente em redor das flôres e das relvas da ilha de Wight, ou de ir mergulhar n'essas prodigiosas paisagens marinhas do alto Norte da Escossia, vae dar a volta ao mundo, carregado de biblias para os pequenos patagonios e de champagne e d'amor para as lindas missionarias, vestidas de marinheiras. A vida de yacht tem os seus costumes especiaes, a sua etiqueta, a sua phraseologia, a sua moral propria, e sobretudo a sua litteratura. A litteratura de yacht é vasta—William Black, o autor das Azas Brancas, do Nascer do Sol, da Princeza de Thude, o seu romancista official: um paisagista maravilhoso, de resto, tendo na sua penna todo o vigor do pincel d'um Jules Breton.
Temos igualmente n'este mez a Shooting-Season, a estação da caça ao tiro, que abre no 1.º de setembro com uma solemnidade tal, e no meio de um interesse publico tão intenso, tão fremente—que me dá sempre ideia do que devia ter sido nas vesperas da Grande Revolução a abertura dos Estados Gerais. Peço perdão d'esta abominavel comparação—mas a carne é fraca, e eu considero esta estação sublime. É n'ella que se caça o grouse, e é durante ella que se come o grouse. Não sabem o que é o grouse? É um passaro do tamanho da perdiz, que vive (Deus o abençôe!) nos moors, ou descampados da Escossia... Agora deixem-me repousar um momento, e ficar aqui, n'um extasi manso, pensando no grouse, com as mãos cruzadas sobre o estomago, o olho enternecido, lambendo o labio... Não imaginem que eu sou um guloso. Mas nunca se deve fallar nas coisas boas sem veneração. Lord Beaconsfield, esse mestre do bom gosto, deu-nos o exemplo quando, tendo mencionado n'um dos seus livros o ortolan, esse outro delicioso passaro, acrescentou—que o peitinho gordo do ortolan é mais delicioso que o seio da mulher, o seu aroma mais perturbador que os lilazes, e o sabor da sua febra melhor que o sabor da verdade. Póde-se dizer o mesmo do grouse.
Continuando, temos a Burglary-Season, a estação dos assaltos e roubos ás casas. Esta começa tambem em setembro, quando a gente rica sai de Londres e deixa os seus palacetes, ou fechados, ou ao cuidado de um velho e somnolento guarda-portão. Os salteadores de Londres, corpo social tão bem organisado como a propria policia, procede então systematicamente, por quadrilhas disciplinadas, usando os mais perfeitos meios scientificos no arrombamento e no saque d'essas propriedades abarrotadas de cousas ricas...
Temos a Lecture-Season, ou estação das conferencias. O seu nome explica-a e seria longo detalhar-lhe a organisação. Basta dizer que n'esta estação não ha talvez um bairro em Londres (quasi podia dizer uma rua), nem uma aldeia no resto do paiz, em que se não veja, cada noite, um sujeito, com um copo d'agua, dissertando sobre um assumpto, deante d'uma audiencia compacta, attenta, interessada e que toma notas. Os assumptos são tudo—desde a ideia de Deus até á melhor maneira de fabricar graxa. E os conferentes são todo o mundo—desde o professor Huxley até um qualquer cavalheiro, o senhor Fulano de Tal, que sóbe á plataforma a contar as suas impressões de viagem ás ilhas Fidji, ou as aptidões curiosas que observou no seu cão...
Ha ainda outras estações que basta enunciar: a Hunting-Season, a estação da caça á raposa (isto é todo um mundo); a Cricket-Season, a estação em que se joga o cricket,—e em que se vêm d'estes edificantes espectaculos: doze cavalheiros, vindos do fundo da Australia, outros doze partindo dos altos da Escossia, e encontrando-se em Londres a jogar ao desafio uma tremenda partida que dura tres dias, na presença arrebatada de um povo em delirio!
Temos tambem a Angling-Season, a estação da pesca á linha, instituição nobilissima a que a humanidade deve o salmão e a truta. É o sport favorito da alta burguezia culta, da magistratura, dos homens de sapiencia, d'aquela parte da velha aristocracia sobre que mais pesam as responsabilidades do Estado. Todo este mundo, de solemne respeitabilidade e de alto ceremonial—pesca á linha. Talvez por isso, de todos os sports inglezes, a pesca á linha é um dos que têm produzido uma litteratura mais consideravel—tão consideravel que a sua bibliografia, a simples enumeração dos seus tratados, occupa um livro de duzentas paginas! Ahi observo com respeito a noticia de um ponderoso estudo sobre a Pesca á linha entre os Assyrios...