Na vida domestica ingleza, a novela tornou-se um objecto de primeira necessidade como a flanella ou as fazendas de algodão; e, portanto, toda uma população de romancistas se emprega em manufacturar este artigo, por grosso, e tão depressa quanto a penna póde escrever, arremessando para o mercado as paginas mal seccas no ancioso conflicto da concorrencia.
Mas a gula, a gulodice de livros de viagem é tambem consideravel, e de resto bem explicavel n'uma raça expansiva e peregrinante, com esquadras em todos os mares, colonias em todos os continentes, feitorias em todas as praias, missionarios entre todos os barbaros, e no fundo d'alma o sonho eterno, o sonho amado de refazer o Imperio Romano. Isto produziu um outro typo de industrial das lettras—o prosador viajante.
Antigamente contava-se a viagem quando casualmente se tinha viajado: o homem que visitava paizes longinquos, se achava em aventuras pittorescas, á volta, repousando ao canto do seu lume, tomava a penna e ia revivendo esses dias n'uma agradavel rememoração de impressões e paisagens. Hoje não. Hoje emprehende-se a viagem unicamente para se escrever o livro. Abre-se o mappa, escolhe-se um ponto do Universo bem selvagem, bem exotico, e parte-se para lá com uma resma de papel e um diccionario. E toda a questão está (como a concorrencia é grande) em saber qual é o recanto da terra sobre que ainda se não publicou livro! Ou, quando o paiz é já toleravelmente conhecido, se não terá ainda alguma aldeola, algum afastado riacho sobre que se possam produzir trezentas paginas de prosa...
Quem hoje encontrar em algum intrincado ponto do Globo um sujeito de capacete de cortiça, lapis na mão, binoculo a tiracollo, não pense que é um explorador, um missionario, um sabio colligindo floras raras—é um prosador inglez preparando o seu volume.
Nada elucida como um exemplo. Aqui está a lista dos livros de viagens publicados em Londres n'estas duas ultimas semanas.
É claro que eu não os li, nem sequer os enxerguei. Copio os titulos, sómente, da lista de dous jornaes de critica: o Atheneum e a Academy. Note-se que estes livros são quasi sempre bem estudados: dão o traço e a linha que pinta, a paysagem com a sua côr e luz, a cidade com o seu movimento e feições; são graphicos e são criticos; têm a geographia e têm a observação; e mais ou menos fazem reviver com o detalhe caracteristico, o povo visitado, na sua vida domestica, a sua religião, a sua agricultura, o seu sport, os seus vicios, a sua arte se a tem. Calcule-se, pois, a importancia d'esta litteratura, que se torna assim um inquerito sagaz, paciente, correcto, feito ao Universo inteiro.
Aqui está, com os titulos traduzidos, o que se publicou n'estes quinze dias: A minha jornada a Medina—Entre os filhos de Han—Nas aguas salgadas—Longe, nos Pampas—Sanctuarios de Piemonte—O novo Japão—Uma visita á Abyssinia—Vida no oeste da India—Pelo Mahakam acima, e pelo Barita abaixo—A cavallo pela Asia Menor—Scenas de Ceylão—Atravez de cidades e prados— No meu Bungaló—As terras dos Matabeles—Fugindo para o sul—Terras do sol da meia-noite—Peregrinações na Patagonia—O Soudan egypcio—Terra dos Maggiyres—Atravez da Siberia—Notas do mundo do Oeste—Caminhos da Palestina—Norsk, Lapp e Finn (onde será isto Santo Deus?!)—Guerras, peregrinações e ondas (que titulo, Deus piedoso!)—A linda Athenas—A peninsula do Mar Branco—Homens e casos da India—A bordo do «Rapoza»—Sport na Crimêa e Caucaso—Nove annos de caçadas na Africa—Diario de uma preguiçosa na Sicilia—A leste do Jordão...
Ainda ha outros, ainda ha muitos—e em quinze dias!
Seria curioso dar parallelamente a lista de poemas, livros de poesias, odes, balladas, tragedias, annunciados ou já publicados na primeira quinzena da estação; mas não tenho paciencia em revolver todo esse lyrismo. Ha uma «grande sensação»: o livro de Dante Rosseti, um dos mestres modernos: o resto é apenas um bando amoroso e triste de rouxinóes.
Não menos espessas, nem menos compactas são as listas dos livros de Theologia, Controversia, Exegese, etc.,—exhalando de si uma melancholia de cemiterio. Em metaphysica ha o costumado sortimento—macisso e vago, como diria Herbert Spencer. Em historia, biographia, critica, as listas bibliographicas vêm riquissimas... Emfim, ao que parece, é uma formidavel e grandiosa estação de livros. Aos romances, nem alludo: montões, montanhas—e monturos!