—Oh romanos! ¿pois acreditais que em Galilea ou Judea apareçam profetas consumando milagres? ¿Como pode um bárbaro alterar a Ordem instituida por Zeus?... Mágicos{345} e feiticeiros são vendilhões, que murmuram palavras ôcas, para arrebatar a espórtula dos simples... Sem a permissão dos Imortais nem um galho sêco pode tombar da árvore, nem sêca fôlha pode ser sacudida na árvore. Não há profetas, não há milagres... Só Apolo Délfico conhece o segredo das coisas!

Então, devagar, com a cabeça derrubada, como numa tarde de derrota, os soldados recolheram à fortaleza de Cesarea. E grande foi o desespero de Septimus, porque sua filha morria, sem um queixume, olhando o mar de Tyro—e todavia a fama de Jesus, curador dos lânguidos males, crescia, sempre mais consoladora e fresca, como a aragem da tarde que sopra do Hermon e, através dos hortos, reanima e levanta as açucenas pendidas.

Ora entre Enganim e Cesarea, num casebre desgarrado, sumido na prega dum cêrro, vivia a êsse tempo uma viuva, mais desgraçada mulher que todas as mulheres de Israel. O seu filhinho único, todo aleijado, passara do magro peito a que ela o criara para os farrapos da enxerga apodrecida, onde jazera, sete anos passados, mirrando e gemendo. Tambêm a ela a doença a engelhara dentro dos trapos nunca mudados, mais escura e torcida que uma cepa arrancada. E, sôbre ambos, espessamente a miséria cresceu como o bolôr sôbre cacos perdidos num ermo. Até na{346} lâmpada de barro vermelho, secara há muito o azeite. Dentro da arca pintada não restava grão ou côdea. No estio, sem pasto, a cabra morrera. Depois, no quinteiro, secara a figueira. Tam longe do povoado, nunca esmola de pão ou mel entrava o portal. E só ervas apanhadas nas fendas das rochas, cosidas sem sal, nutriam aquelas criaturas de Deus na Terra Escolhida, onde até às aves maléficas sobrava o sustento!

Um dia um mendigo entrou no casebre, repartiu do seu farnel com a mãe amargurada, e um momento sentado na pedra da lareira, coçando as feridas das pernas, contou dessa grande esperança dos tristes, êsse Rabi que aparecera na Galilea, e de um pão no mesmo cêsto fazia sete, e amava todas as criancinhas, e enxugava todos os prantos, e prometia aos pobres um grande e luminoso Reino, de abundância maior que a Côrte de Salomão. A mulher escutava com olhos famintos. ¿E êsse dôce Rabi, esperança dos tristes, onde se encontrava? O mendigo suspirou. Ah êsse dôce Rabi! quantos o desejavam, que se desesperançavam! A sua fama andava por sôbre toda a Judea como o sol que até por qualquer vélho muro se estende e se goza; mas para enxergar a claridade do seu rosto, só aqueles ditosos que o seu desejo escolhia. Obed, tam rico, mandara os seus{347} servos por toda a Galilea para que procurassem Jesus, o chamassem com promessas a Enganim: Septimus, tam soberano, destacara os seus soldados até à costa do mar, para que buscassem Jesus, o conduzissem, por seu mando, a Cesarea. Errando, esmolando por tantas estradas, êle topara os servos de Obed, depois os legionários de Septimus. E todos voltavam, como derrotados, com as sandálias rôtas, sem ter descoberto em que mata ou cidade, em que toca ou palácio, se escondia Jesus.

A tarde caía. O mendigo apanhou o seu bordão, desceu pelo duro trilho, entre a urze e a rocha. A mãe retomou o seu canto, mais vergada, mais abandonada. E então o filhinho, num murmúrio mais débil que o roçar duma asa, pediu à mãe que lhe trouxesse êsse Rabi, que amava as criancinhas ainda as mais pobres, sarava os males ainda os mais antigos. A mãe apertou a cabeça esguedelhada:

—Oh filho! ¿e como queres que te deixe, e me meta aos caminhos, à procura do Rabi da Galilea? Obed é rico e tem servos, e debalde buscaram Jesus, por areais e colinas, desde Chorazin até ao país de Moab. Septimus é forte, e tem soldados, e debalde correram por Jesus, desde o Hebron até ao mar! ¿Como queres que te deixe? Jesus anda por muito longe e a nossa dor mora comnosco, dentro destas paredes, e dentro delas nos prende. ¿E mesmo que{348} o encontrasse, como convenceria eu o Rabi tam desejado, por quem ricos e fortes suspiram, a que descesse através das cidades até êste ermo, para sarar um entrevadinho tam pobre, sôbre enxerga tam rôta?

A criança, com duas longas lágrimas na face magrinha, murmurou:

—Oh mãe! Jesus ama todos os pequeninos. E eu ainda tam pequeno, e com um mal tam pesado, e que tanto queria sarar!

E a mãe, em soluços:

—¿Oh meu filho, como te posso deixar? Longas são as estradas da Galilea, e curta a piedade dos homens. Tam rôta, tam trôpega, tam triste, até os cães me ladrariam da porta dos casais. Ninguêm atenderia o meu recado, e me apontaria a morada do doce Rabi. Oh filho! talvez Jesus morresse... Nem mesmo os ricos e os fortes o encontram. O céu o trouxe, o céu o levou. E com êle para sempre morreu a esperança dos tristes.