No entanto Macário exalava-se em exclamações desinteressadas:

—Pelo amor de Deus! Ora que tem! Àmanhã aparecerá! Tenham a bondade! Por quem são! Então, snr.ª D. Luísa! Pelo amor de Deus! Não vale nada.

Mas mentalmente estabeleceu que houvera uma subtracção—e atribuiu-a ao beneficiado. A peça rolara, de-certo, até junto dêle sem ruido; êle pusera-lhe em cima o seu vasto sapato eclesiástico e tachado; depois, no movimento brusco e curto que tivera, empolgára-a vilmente. E, quando saíram, o beneficiado, todo embrulhado no seu vasto capote de camelão, dizia a Macário pela escada:

—¿Ora o sumiço da peça, hein? Que brincadeira!

—¿Acha, snr. beneficiado?!—disse Macário parando, pasmado da impudência.

—Ora essa! Se acho?! Se lhe parece! Uma peça de 7$000 réis! Só se o senhor as semeia... Safa! Eu dava em doido!

Macário teve tédio daquela astúcia fria. Não lhe respondeu. O beneficiado é que acrescentou:

—Àmanhã mande lá pela manhã, homem.{23} Que diabo... Deus me perdôe! Que diabo! uma peça não se perde assim. Que bolada, hein!

E Macário tinha vontade de lhe bater.

Foi neste ponto que Macário me disse, com a sua voz singularmente sentida: