Na fazenda, a longa conversa com o Teles criou uma aproximação maior entre Adrião e Maria da Piedade. Aquela venda que ela discutia com uma astúcia de aldeã, punha entre êles como que um interesse comum. Ela falou-lhe já com menos reserva quando voltaram. Havia nas maneiras dêle, dum respeito tocante, uma atracção que a seu pesar a levava a revelar-se, a dar-lhe a sua confiança: nunca falára tanto a ninguêm: a ninguêm jàmais deixara ver tanto da melancolia oculta que errava constantemente na sua alma. De resto as suas queixas eram sôbre a mesma dor—a tristeza do seu interior, as doenças, tantos cuidados graves... E vinha-lhe por êle uma simpatia, como um indefinido desejo de o ter sempre presente, desde que êle se tornava assim depositário das suas tristezas.
Adrião voltou para o seu quarto, na estalagem do André, impressionado, interessado por aquela criatura tam triste e tam doce. Ela destacava sôbre o mundo de mulheres que até ali conhecera, como um perfil suave de anjo gótico entre fisionomias de mesa redonda. Tudo nela concordava deliciosamente: o oiro do cabelo, a doçura da voz, a modéstia na melancolia, a linha casta, fazendo um ser delicado e tocante, a que mesmo o seu pequenino espírito burguês, certo fundo rústico de aldeã e uma leve vulgaridade de hábitos davam um encanto: era{72} um anjo que vivia há muito tempo numa vilota grosseira e estava por muitos lados prêso às trivialidades do sítio: mas bastaria um sôpro para o fazer remontar ao céu natural, aos cimos puros da sentimentalidade...
Achava absurdo e infame fazer a côrte à prima... Mas involuntáriamente pensava no delicioso prazer de fazer bater aquele coração que não estava deformado pelo espartilho, e de pôr emfim os seus lábios numa face onde não houvesse pós de arroz... E o que o tentava sobretudo era pensar que poderia percorrer toda a província em Portugal, sem encontrar nem aquela linha do corpo, nem aquela virgindade tocante de alma adormecida... Era uma ocasião que não voltava.
O passeio ao moinho foi encantador. Era um recanto de natureza, digno de Corot, sobretudo à hora do meio dia em que êles lá foram, com a frescura da verdura, a sombra recolhida das grandes árvores, e toda a sorte de murmúrios de água corrente, fugindo, reluzindo entre os musgos e as pedras, levando e espalhando no ar o frio da folhagem, da relva, por onde corriam cantando. O moinho era dum alto pitoresco, com a sua vélha edificação de pedra secular, a sua roda enorme, quási pôdre, coberta de ervas, imóvel sôbre a gelada limpidez da água escura. Adrião achou-o digno duma scena de romance, ou{73} melhor, da morada duma fada. Maria da Piedade não dizia nada, achando extraordinária aquela admiração pelo moinho abandonado do tio Costa. Como ela vinha um pouco cansada, sentaram-se numa escada desconjuntada de pedra, que mergulhava na água da reprêsa os últimos degraus: e ali ficaram um momento calados, no encanto daquela frescura murmurosa, ouvindo as aves piarem nas ramas. Adrião via-a de perfil, um pouco curvada, esburacando com a ponteira do guarda-sol as ervas bravas que invadiam os degraus: era deliciosa assim, tam branca, tam loura, duma linha tam pura sôbre o fundo azul do ar: o seu chapéu era de mau gôsto, o seu mantelete antiquado, mas êle achava nisso mesmo uma ingenuidade picante. O silêncio dos campos em redor isolava-os—e, insensívelmente, êle começou a falar-lhe baixo. Era ainda a mesma compaixão pela melancolia da sua existência naquela triste vila, pelo seu destino de enfermeira... Ela escutava-o de olhos baixos, pasmada de se achar ali tam só com aquele homem tam robusto, toda receosa e achando um sabor delicioso ao seu receio... Houve um momento em que êle falou do encanto de ficar ali para sempre na vila.
—Ficar aqui? Para quê?—perguntou ela sorrindo.{74}
—Para quê? para isto, para estar sempre ao pé de si...
Ela cobriu-se de um rubor, o guarda-solinho escapou-lhe das mãos. Adrião receou tê-la ofendido, e acrescentou logo rindo:
—¿Pois não era delicioso?... Eu podia alugar êste moinho, fazer-me moleiro... A prima havia de me dar a sua freguesia...
Isto fê-la rir: era mais linda quando ria: tudo brilhava nela, os dentes, a pele, a côr do cabelo. Êle continuou gracejando, com o seu plano de se fazer moleiro, e de ir pela estrada tocando o burro, carregado de sacas de farinha.
—E eu venho ajudá-lo, primo!—disse ela, animada pelo seu próprio riso, pela alegria daquele homem a seu lado.