Assim jantamos deliciosamente, sob os auspícios do Zé Brás. E depois voltamos para as alegrias únicas da casa, para as janelas desvidraçadas, a contemplar silenciosamente um suntuoso céu de verão, tam cheio de estrêlas que todo êle parecia uma densa poeirada de oiro vivo, suspensa, imóvel, por cima dos montes negros. Como eu observei ao meu Jacinto, na cidade nunca se olham os astros por causa dos candieiros—que os ofuscam: e nunca se entra por isso numa completa comunhão com o universo. O homem nas capitais pertence à sua casa, ou se o impelem fortes tendências de sociabilidade, ao seu bairro. Tudo o isola e o separa da restante natureza—os prédios obstrutores de seis andares, a fumaça das chaminés, o rolar moroso e grosso dos ónibus, a trama encarceradora da vida urbana... Mas que diferença, num cimo de monte, como Torges! Aí todas essas belas estrelas olham para nós de pérto, rebrilhando, à maneira de olhos conscientes, umas fixamente, com sublime indiferença,{109} outras ansiosamente, com uma luz que palpita, uma luz que chama, como se tentassem revelar os seus segredos ou compreender os nossos... E é impossível não sentir uma solidariedade perfeita entre êsses imensos mundos e os nossos pobres corpos. Todos somos obra da mesma vontade. Todos vivemos da acção dessa vontade imanente. Todos, portanto, desde os Uranos até aos Jacintos, constituimos modos diversos de um ser único, e através das suas transformações somamos na mesma unidade. Não há idea mais consoladora do que esta—que eu, e tu, e aquele monte, e o sol que agora se esconde, somos moléculas do mesmo Todo, governadas pela mesma Lei, rolando para o mesmo Fim. Desde logo se sómem as responsabilidades torturantes do individualismo. ¿Que somos nós? Formas sem fôrça, que uma Fôrça impele. E há um descanso delicioso nesta certeza, mesmo fugitiva, de que se é o grão de pó irresponsável e passivo que vai levado no grande vento, ou a gota perdida na torrente! Jacinto concordava, sumido na sombra. Nem êle nem eu sabíamos os nomes dêsses astros admiráveis. Eu, por causa da maciça e indesbastável ignorância de bacharel, com que saí do ventre de Coímbra, minha mãe espiritual. Jacinto, porque na sua ponderosa biblioteca tinha trezentos e dezoito tratados sôbre astronomia! ¿Mas{110} que nos importava, de resto, que aquele astro alêm se chamasse Sírius e aquele outro Aldebaran? ¿Que lhes importava a êles que um de nós fôsse José e o outro Jacinto? Éramos formas transitórias do mesmo ser eterno—e em nós havia o mesmo Deus. E se êles tambêm assim o compreendiam, estávamos ali, nós à janela num casarão serrano, êles no seu maravilhoso infinito, perfazendo um acto sacrossanto, um perfeito acto de Graça—que era sentir conscientemente a nossa unidade, e realizar, durante um instante, na consciência, a nossa divinização.

Assim ennevoadamente filosofávamos—quando Zé Brás, com uma candeia na mão, veio avisar que «estavam preparadas as camas de suas inselências...» Da idealidade descemos gostosamente à realidade, ¿e que vimos então nós, os irmãos dos astros? Em duas salas tenebrosas e côncavas, duas enxergas, postas no chão, a um canto, com duas cobertas de chita; à cabeceira um castiçal de latão, pousado sôbre um alqueire: e aos pés, como lavatório, um alguidar vidrado em cima de uma cadeira de pau!

Em silêncio, o meu super-civilizado amigo palpou a sua enxerga e sentiu nela a rigidez dum granito. Depois, correndo pela face descaída os dedos murchos, considerou que, perdidas as suas malas, não tinha nem chinelas{111} nem roupão! E foi ainda o Zé Brás que providenciou, trazendo ao pobre Jacinto, para êle desafogar os pés, uns tremendos tamancos de pau, e para êle embrulhar o corpo, docemente educado em Sybaris, uma camisa da caseira, enorme, de estopa mais aspera que estamenha de penitente, e com folhos crespos e duros como lavores em madeira... Para o consolar, lembrei que Platão, quando compunha o Banquete, Xenofonte, quando comandava os Dez Mil, dormiam em piores catres. As enxergas austeras fazem as fortes almas—e é só vestido de estamenha que se penetra no Paraíso.

—¿Tem você—murmurou o meu amigo, desatento e sêco—alguma cousa que eu leia?.... Eu não posso adormecer sem ler!

Eu possuia apenas o número do Jornal da Tarde, que rasguei pelo meio, e partilhei com êle fraternalmente. E quem não viu então Jacinto, senhor de Torges, acaçapado à borda da enxerga, junto da vela que pingava sôbre o alqueire, com os pés nus encafuados nos grossos sócos, perdido dentro da camisa da patrôa, toda em folhos, percorrendo na metade do Jornal da Tarde, com os olhos turvos, os anúncios dos paquetes—não pode saber o que é uma vigorosa e real imagem do desalento!

Assim o deixei—e daí a pouco, estendido{112} na minha enxerga tambêm espartana, subia, através dum sonho jovial e erudito, ao planeta Vénus, onde encontrava, entre os olmos e os ciprestes, num vergel, Platão e Zé Brás, em alta camaradagem intelectual, bebendo o vinho da Rética pelos copos de Torges! Travámos todos três bruscamente uma controvérsia sôbre o século XIX. Ao longe, por entre uma floresta de roseiras mais altas que carvalhos, alvejavam os mármores duma cidade e ressoavam cantos sacros. Não recordo o que Xenofonte sustentou àcêrca da civilização e do fonógrafo. De repente tudo foi turbado por fuscas nuvens, através das quais eu distinguia Jacinto, fugindo num burro que êle impelia furiosamente com os calcanhares, com uma vergasta, com berros, para os lados do Jasmineiro!

[V]

Cedo, de madrugada, sem rumor, para não despertar Jacinto, que, com as mãos sôbre o peito, dormia plácidamente no seu leito de granito—parti para Guiães. E durante três quietas semanas, naquela vila onde se conservam os hábitos e as ideas do tempo de El-Rei{113} D. Dinís, não soube do meu desconsolado amigo, que de-certo fugira dos seus tetos esburacados e remergulhára na civilização. Depois, por uma abrasada manhã de agosto, descendo de Guiães, de novo trilhei a avenida de faias, e entrei o portão solarengo de Torges, entre o furioso latir dos rafeiros. A mulher do Zé Brás apareceu alvoroçada à porta da tulha. E a sua nova foi logo que o snr. D. Jacinto (em Torges, o meu amigo tinha dom) andava lá em baixo com o Sousa nos campos de Freixomil.

—¿Então, ainda cá está o snr. D. Jacinto?!

Sua inselência ainda estava em Torges—e sua inselência ficava para a vindima!... Justamente eu reparava que as janelas do solar tinham vidraças novas; e a um canto do pátio pousavam baldes de cal; uma escada de pedreiro ficára arrimada contra a varanda; e num caixote aberto, ainda cheio de palha de empacotar, dormiam dois gatos.