No entanto, bem podemos supôr que Abel nasceu—e, uns após outros, os dias deslizam no Paraíso, mais seguros e fáceis. Já os vulcões lentamente se vão apagando. As rochas não se despenham já com fragor sôbre a abundância inocente dos vales. Tam amansadas andam as águas, que na sua transparência se miram, com demora e cuidado, as nuvens e os ramos dos olmos. Raramente um Pterodactilo macúla, com o escândalo do seu bico e das suas asas, os céus, onde o sol alterna com a bruma, e os estios se franjam de chuvas ligeiras. E nesta tranqùilidade que se estabelece há como uma submissão consciente. O Mundo pressente e aceita a supremacia do Homem. A floresta já não arde com{199} a leviandade do restolho, sabendo que em breve o Homem lhe pedirá a estaca, a trave, o rêmo, o mastro. O vento, nas gargantas da serra, brandamente se disciplina, e ensaia os sopros regulares com que trabalhará a mó do moinho. O mar afogou os seus monstros, e estira o dorso preparado para o cortar da quilha. A terra torna estável a sua gleba, e molemente se humedece, para quando chegar o arado e a semente. E todos os metais se alinham em filão, e alegremente se dispõem para o fogo que lhes dará forma e beleza.
E pela tarde Adão recolhe contente, com caça abundante. A lareira flameja: e alumia a face de nosso Pai, que o esfôrço da Vida embelezou, onde já os beiços se adelgaçaram, e a testa se encheu com o lento pensar, e os olhos sossegaram num brilho mais certo. O anho, espetado num pau, assa e pinga nas brasas. No chão pousam cascas de côco, cheias de clara água da fonte. Uma pele de urso tornou macio o leito de fetos. Outra pele, pendurada, abriga a bôca da caverna. A um canto, que é a oficina, estão os montões de sílex e o malho: a outro canto, que é o arsenal, estão as lanças e as clavas. Eva torce os fios duma lã de cabra. Ao bom calor, sôbre folhelho, dorme Abel, muito gordo, todo nú, com um pêlo mais ralo na carninha mais branca. Partilhando do folhelho e{200} do mesmo calor, vela o cão, já crescido, com o ôlho amorável, o focinho entre as patas. E Adão (oh, a estranha tarefa!) muito absorto, tenta gravar, com uma ponta de pedra, sôbre um osso largo, os galhos, o dorso, as pernas estiradas dum veado a correr!... A lenha estala. Todas as estrêlas do céu estão presentes. Deus, pensativo, contempla o crescer da Humanidade.
E agora que acendi, na noite estrelada do Paraíso, com galhos bem sêcos da Árvore da Sciência, êste verídico lar, consenti que vos deixe, oh Pais veneráveis!
Já não receio que a Terra instável vos esmague; ou que as feras superiores vos devorem; ou que, apagada, à maneira duma lâmpada imperfeita, a Energia que vos trouxe da Floresta, vós retrogradeis à vossa Árvore. Sois já irremediavelmente humanos—e cada manhã progredireis, com tam poderoso arremêsso, para a perfeição do Corpo e esplendor da Razão, que em breve, dentro dumas centenas de milhares de curtos anos, Eva será a formosa Helena e Adão será o imenso Aristóteles!
Mas não sei se vos felicite, oh Pais veneráveis! Outros irmãos vossos ficaram na espessura das árvores—e a sua vida é doce.{201}
Todas as manhãs o Orangotango acorda entre os seus lençóis de fôlhas de pendénia, sôbre o fôfo colchão de musgos que êle, com cuidado, acamou por cima dum catre de ramos cheirosos. Lânguidamente, sem cuidados, preguiça na moleza dos musgos, escutando as límpidas árias dos pássaros, gozando os fios do sol que se emmaranham por entre a renda das fôlhas, e lambendo no pêlo dos seus braços o orvalho açucarado. Depois de bem se coçar e bem se esfregar, sobe com pachorra à árvore dilecta, que elegeu em todo o bosque pela sua frescura, pela elasticidade embaladora das suas ramagens. Daí, tendo respirado as brisas carregadas de aromas, salta, com lestos pulos, através das sempre fáceis, sempre fartas ucharias do bosque, onde almoça a banana, a manga, a goiaba, todos os finos frutos que o tornam tam são e alheio a males como as árvores onde os colheu. Percorre então, sociavelmente, as ruas e as vielas palreiras da espessura; cabriola com destros amigos, em jogos amáveis de ligeireza e fôrça; galanteia as Orangas gentis que o catam, e penduradas com êle, duma liana florida, se balançam chalrando; trota, entre alegres ranchos, pela borda das águas claras; ou, sentado na ponta dum ramo, escuta algum vélho e facundo chimpanzé contando divertidas histórias de caça, de viagens, de{202} amores e de troças às feras pesadas, que circulam nas relvas e não podem trepar. Cedo recolhe à sua árvore, e, estendido na folhosa rêde, brandamente se abandona à delícia de sonhar, num sonho acordado, semelhante às nossas Metafísicas e às nossas Epopeias, mas que rolando todo sôbre sensações reais, é, ao contrário dos nossos incertos sonhos, um sonho todo feito de certeza. Por fim a Floresta lentamente se cala, a sombra escorrega entre os troncos:—e o Orango ditoso desce ao seu catre de pendénias e musgos, e adormece na imensa paz de Deus—de Deus que êle nunca se cansou em comentar, nem sequer em negar, e que todavia sôbre êle derrama, com imparcial carinho, os bens inteiros da sua Misericórdia.
Assim ocupou o seu dia o Orango, nas Árvores. ¿E no entanto, como gastou, nas Cidades, o seu dia, o Homem, primo do Orango? Sofrendo—por ter os dons superiores que faltam ao Orango! Sofrendo—por arrastar consigo, irresgatavelmente, êsse mal incurável que é a sua Alma! Sofrendo—porque nosso Pai Adão, no terrível dia 28 de Outubro, depois de espreitar e farejar o Paraíso, não ousou declarar reverentemente ao Senhor:—«Obrigado, oh meu doce Criador; dá o governo da Terra a quem melhor escolheres, ao Elefante ou ao Cangurú, que eu por{203} mim, bem mais avisado, volto já para a minha árvore!...»
Mas, emfim, desde que nosso Pai venerável não teve a previdência ou a abnegação de declinar a grande supremacia—continuemos a reinar sôbre a Criação e a ser sublimes... Sobretudo continuemos a usar, insaciavelmente, do dom melhor que Deus nos concedeu entre todos os dons, o mais puro, o único genuìnamente grande, o dom de o amar—pois que não nos concedeu tambêm o dom de o compreender. E não esqueçamos que Êle já nos ensinou, através de vozes levantadas em Galilea, e sob as mangueiras de Veluvana, e nos vales severos de Yen-Chou, que a melhor maneira de o amar é que uns aos outros nos amemos, e que amemos toda a sua obra, mesmo o verme, e a rocha dura, e a raiz venenosa, e até êsses vastos seres que não parecem necessitar o nosso amor, êsses Sóis, êsses Mundos, essas esparsas Nebuloses, que, inicialmente fechadas, como nós, na mão de Deus, e feitas da nossa substância, nem de-certo nos amam—nem talvez nos conhecem.{204} {205}
[A AIA]
Era uma vez um rei, môço e valente, senhor de um reino abundante em cidades e searas, que partira a batalhar por terras distantes, deixando solitária e triste a sua raínha e um filhinho, que ainda vivia no seu berço, dentro das suas faixas.