—Senhor, eu tenho de ir convosco a Cabril, onde vós ides.{245}

O cavaleiro estremeceu num tam forte assombro, repuxando as rédeas, que o seu bom cavalo se empinou como assombrado tambêm.

—Comigo a Cabril?!...

O homem curvou o espinhaço, a que se viam os ossos todos, mais agudos que os dentes de uma serra, através de um longo rasgão da camisa de estamenha:

—Senhor—suplicou—não mo negueis. Que eu tenho a receber grande salário se vos fizer grande serviço!

Então D. Rui pensou de repente que bem podia ser aquela uma traça formidável do Demónio. E, cravando os olhos muito brilhantes na face morta que para êle se erguia, ansiosa, à espera do seu consentimento—fez um lento e largo Sinal da Cruz.

O enforcado vergou os joelhos com assustada reverência:

—¿Senhor, para que me experimentais com êsse sinal? Só por êle alcançamos remissão, e eu só dêle espero misericórdia.

Então D. Rui pensou que, se êsse homem não era mandado pelo Demónio, bem podia ser mandado por Deus! E logo devotamente, com um gesto submisso em que tudo entregava ao céu, consentiu, aceitou o pavoroso companheiro:

—Vem comigo, pois, a Cabril, se Deus{246} te manda! Mas eu nada te pergunto e tu nada me perguntes.