Com vagarosa cautela, e na ponta dos pés nus, avançava agora o enforcado, vigiando o alto do muro, sondando a negrura da sebe, parando a escutar rumores que só para êle eram percebíveis—porque nunca D. Rui conhecera noite mais fundamente adormecida e muda.

E tal susto, em quem devia ser indiferente a perigos humanos, foi lentamente enchendo tambêm o valoroso cavaleiro de tam viva desconfiança, que tirava o punhal da baínha, enrodilhava a capa no braço, e marchava em{249} defesa, com o olhar faiscando, como num caminho de emboscada e briga. Assim chegaram a uma porta baixa, que o enforcado empurrou, e que se abriu sem gemer nos gonzos. Penetraram numa rua ladeada de espessos teixos até a um tanque cheio de água, onde boiavam fôlhas de nenúfares, e que toscos bancos de pedra circundavam, cobertos pela rama de arbustos em flor.

—Por ali—murmurou o enforcado, estendendo o braço mirrado.

Era alêm do tanque, uma avenida que densas e vélhas árvores abobadavam e escureciam. Por ela se meteram, como sombras na sombra, o enforcado adiante, D. Rui seguindo muito subtilmente, sem roçar um ramo, mal pisando a areia. Um leve fio de água sussurrava entre relvas. Pelos troncos subiam rosas trepadeiras, que cheiravam docemente. O coração de D. Rui recomeçou a bater numa esperança de amor.

—Chut!—fez o enforcado.

E D. Rui quási tropeçou no sinistro homem que estacava, com os braços abertos como as traves de uma cancela. Diante dêles quatro degraus de pedra subiam a um terraço, onde a claridade era larga e livre. Agachados, treparam os degraus—e ao fundo dum jardim sem árvores, todo em canteiros de flores bem recortados, orlados de buxo{250} curto, avistaram um lado da casa batido pela lua cheia. Ao meio, entre as janelas de peitoril fechadas, um balcão de pedra, com manjericões aos cantos, conservava as vidraças abertas largamente. O quarto, dentro, apagado, era como um buraco de treva na claridade da fachada que o luar banhava. E arrimada contra o balcão, estava uma escada com degraus de corda.

Então o enforcado empurrou D. Rui vivamente dos degraus para a escuridão da avenida. E aí, com um modo urgente, dominando o cavaleiro, exclamou:

—Senhor! Convêm agora que me deis o vosso sombreiro e a capa! Vós quedais aqui na escuridão destas árvores. Eu vou trepar àquela escada e espreitar para aquele quarto... E se fôr como desejais, aqui voltarei, e com Deus sêde feliz...

D. Rui recuou no horror de que tal criatura subisse a tal janela!

E bateu o pé, gritou surdamente: