Arrepiado, numa ânsia de findar aventura tam cheia de milagre e de horror, D. Rui colheu as rédeas, cavalgou sôfregamente. E logo, em grande pressa, o enforcado saltou tambêm para a garupa do cavalo fiel. Todo se arrepiou o bom cavaleiro, ao sentir nas suas{253} costas o roçar daquele corpo morto, dependurado de uma forca, atravessado por uma adaga. Com que desespêro galopou então pela estrada infindável! Em carreira tam violenta o enforcado nem oscilava, rígido sôbre a garupa, como um bronze num pedestal. E D. Rui a cada momento sentia um frio mais regelado que lhe regelava os ombros, como se levasse sôbre êles um saco cheio de gêlo. Ao passar no cruzeiro murmurou:—«Senhor, valei-me!»—Para alêm do cruzeiro, de repente estremeceu com o quimérico medo de que tam fúnebre companheiro para sempre o ficasse acompanhando, e se tornasse seu destino galopar através do mundo, numa noite eterna, levando um morto à garupa... E não se conteve, gritou para trás, no vento da carreira que os vergastava:

—¿Para onde quereis que vos leve?

O enforcado, encostando tanto o corpo a D. Rui que o magoou com os copos da adaga, segredou:

—Senhor, convêm que me deixeis no Cêrro!

Doce e infinito alívio para o bom cavaleiro—pois o Cêrro estava perto, e já lhe avistava, na claridade desmaiada, os pilares e as traves negras... Em breve estacou o cavalo que tremia, branqueado de espuma.

Logo o enforcado, sem rumor, escorregou{254} da garupa, segurou, como bom serviçal, o estribo de D. Rui. E com a caveira erguida, a língua negra mais saída de entre os dentes brancos, murmurou em respeitosa súplica:

—Senhor, fazei-me agora a grande mercê de me pendurar outra vez da minha trave.

D. Rui estremeceu de horror:

—Por Deus! Que vos enforque, eu?...

O homem suspirou, abrindo os braços compridos: