¿Era o grito da alma, no assombro e horror de morrer tambêm? ¿Ou era a alma triunfando por se reconhecer emfim imortal e livre? O meu amigo não sabe; nem o soube o divino Platão; nem o saberá o derradeiro filósofo na derradeira tarde do mundo.

Chegamos ao cemitério. Creio que devemos pegar às borlas do caixão... Na verdade, é bem singular êste Alves Capão, seguindo tam sentidamente o nosso pobre espiritualista... Mas, Santo Deus, olhe! Alêm, à espera, à porta da Igreja, aquele sujeito compenetrado, de casaca, com paletó alvadio... É o apontador de Obras Públicas! E trás um grosso ramo de violetas... Elisa mandou o seu amante carnal acompanhar à cova e cobrir{302} de flores o seu amante espiritual! Mas, nunca ela pediria ao José Matias para espalhar violetas sôbre o cadaver do apontador! É que sempre a Matéria, mesmo sem o compreender, sem dêle tirar a sua felicidade, adorará o Espírito, e sempre a si própria, através dos gozos que de si recebe, se tratará com brutalidade e desdêm! Grande consôlo, meu amigo, êste apontador com o seu ramo, para um Metafísico que, como eu, comentou Spínosa e Mallebranche, reabilitou Fichte, e provou suficientemente a ilusão da sensação! Só por isto valeu a pena trazer à sua cova êste inexplicado José Matias, que era talvez muito mais que um homem—ou talvez ainda menos que um homem...—Com efeito, está frio... Mas que linda tarde!{303}

[A PERFEIÇÃO]

[I]

Sentado numa rocha, na ilha de Ogigya, com a barba enterrada entre as mãos, de onde desaparecera a aspereza calosa e tisnada das armas e dos remos, Ulisses, o mais subtil dos homens, considerava, numa escura e pesada tristeza, o mar muito azul que mansa e harmoniosamente rolava sôbre a areia muito branca. Uma túnica bordada de flores escarlates cobria, em pregas moles, o seu corpo poderoso, que engordara. Nas correias das sandálias, que lhe calçavam os pés amaciados e perfumados de essências, reluziam esmeraldas do Egipto. E o seu bastão era um maravilhoso galho de coral, rematado em pinha de pérolas, como os que usam os Deuses marinhos.{304}

A divina Ilha, com os seus rochedos de alabastro, os bosques de cedros e tuias odoríferas, as messes eternas doirando os vales, a frescura das roseiras revestindo os outeiros suaves, resplandecia, adormecida na moleza da sésta, toda envolta em mar resplandecente. Nem um sôpro dos Zéfiros curiosos, que brincam e correm por sôbre o Arquipélago, desmanchava a serenidade do luminoso ar, mais doce que o vinho mais doce, todo repassado pelo fino aroma dos prados de violetas. No silêncio, embebido de calor afável, eram duma harmonia mais embaladora os murmúrios de arroios e fontes, o arrulhar das pombas voando dos ciprestes aos plátanos, e o lento rolar e quebrar da onda mansa sôbre a areia macia. E nesta inefável paz e beleza imortal, o subtil Ulisses, com os olhos perdidos nas águas lustrosas, amargamente gemia, revolvendo o queixume do seu coração...

Sete anos, sete imensos anos, iam passados desde que o raio fulgente de Júpiter fendera a sua nave de alta prôa vermelha, e êle, agarrado ao mastro partido, trambulhara na braveza mugidora das espumas sombrias, durante nove dias, durante nove noites, até que boiara em águas mais calmas, e tocara as areias daquela ilha onde Calipso, a Deusa radiosa, o recolhera e o amara! ¿E durante êsses imensos anos, como se arrastara a sua{305} vida, a sua grande e forte vida, que, depois da partida para os muros fatais de Troia, abandonando entre lágrimas inumeráveis a sua Penélope de olhos claros, o seu pequenino Telêmaco enfaixado no colo da ama, andara sempre tam agitada por perigos, e guerras, e astúcias, e tormentas, e rumos perdidos?... Ah! ditosos os Reis mortos, com formosas feridas no branco peito, diante das portas de Troia! Felizes os seus companheiros tragados pela onda amarga! Feliz êle se as lanças troianas o trespassassem nessa tarde de grande vento e poeira, quando, junto à Faia, defendia dos ultrajes, com a espada sonora, o corpo morto de Aquiles! Mas não! vivera!—E agora, cada manhã, ao saír sem alegria do trabalhoso leito de Calipso, as Ninfas, servas da Deusa, o banhavam numa água muito pura, o perfumavam de lânguidas essências, o cobriam com uma túnica sempre nova, ora bordada a sêdas finas, ora bordada de oiro pálido! No entanto, sôbre a mesa lustrosa, erguida à porta da gruta, na sombra das ramadas, junto ao sussurro dormente dum arroio diamantino, os açafates e as travessas lavradas transbordavam de bolos, de frutas, de tenras carnes fumegando, de peixes scintilando como tramas de prata. A intendenta venerável gelava os vinhos doces nas crateras de bronze, coroadas de rosas. E êle, sentado num escabelo, estendia{306} as mãos para as iguarias perfeitas, emquanto ao lado, sôbre um trono de marfim, Calipso, espargindo através da túnica nevada a claridade e o aroma do seu corpo imortal, sublimemente serena, com um sorriso taciturno, sem tocar nas comidas humanas, debicava a ambrosia, bebia em goles delgados o néctar transparente e rubro. Depois, tomando aquele bastão de Príncipe-de-Povos com que Calipso o presenteara, repercorria sem curiosidade os sabidos caminho da Ilha, tam lisos e tratados que nunca as suas sandálias reluzentes se maculavam de pó, tam penetrados pela imortalidade da Deusa que jàmais neles encontrara fôlha sêca, nem flor menos fresca pendendo na haste. Sôbre uma rocha se sentava então, contemplando aquele mar que tambêm banhava Ítaca, lá tam bravio, aqui tam sereno, e pensava, e gemia, até que as águas e os caminhos se cobriam de sombra, e êle recolhia à gruta para dormir, sem desejo, com a Deusa que o desejava!... ¿E durante êstes imensos anos, que destino envolvera a sua Ítaca, a áspera ilha de sombrias matas? ¿Viviam êles ainda, os seres amados? ¿Sôbre a forte colina, dominando a enseada de Reithros e os pinheirais de Neus, ainda se erguia o seu palácio, com os belos pórticos pintados de vermelho e roxo? ¿Ao cabo de tam lentos e vazios anos, sem novas, apagada{307} toda a esperança como uma lâmpada, despira a sua Penélope a túnica passageira da viuvez e passara para os braços doutro espôso forte, que agora manejava as suas lanças e vindimava as suas vinhas? ¿E o doce filho Telêmaco? ¿Reinaria êle em Ítaca, sentado, com o branco scetro, sôbre o mármore alto da Agorá? ¿Ocioso e rondando pelos pátios, baixaria os olhos sob o império duro dum padrasto? ¿Erraria por cidades alheias, mendigando um salário?... Ah! se a sua existência, assim para sempre arrancada da mulher, do filho, tam doces ao seu coração, andasse ao menos empregada em façanhas ilustres! Dez anos antes, tambêm desconhecia a sorte de Ítaca, e dos seres preciosos que lá deixara em solidão e fragilidade; mas uma emprêsa heróica o agitava; e cada manhã a sua fama crescia, como uma árvore num promontório, que enche o céu e todos os homens contemplam. Então era a planície de Troia—e as brancas tendas dos gregos ao longo do mar sonoro! Sem cessar, meditava astúcias de guerra; com soberba facúndia discursava na Assembleia dos Reis; rijamente jungia os cavalos empinados ao timão dos carros; de lança alta corria, entre a grita e a pressa, contra os Troianos de altos elmos, que surdiam, em roldão ressoante, das portas Skaias!... Oh! e quando êle, Príncipe-de-Povos, encolhido sob farrapos de mendigo,{308} com os braços maculados de chagas postiças, coxeando e gemendo, penetrara nos muros da orgulhosa Troia, pelo lado da Faia, para de noite, com incomparável ardil e bravura, roubar o Paládio tutelar da cidade! E quando, dentro do ventre do Cavalo-de-Pau, na escuridão, no apêrto de todos aqueles guerreiros hirtos e cobertos de ferro, calmava a impaciência dos que sufocavam, e tapava com a mão a bôca de Antiklos bravejando furioso, ao escutar fóra na planície os ultrajes e os escárnios troianos, e a todos murmurava: «Cala, cala! que a noite desce e Troia é nossa...» E depois as prodigiosas viagens! O pavoroso Polifemo, ludibriado com uma astúcia que para sempre maravilhará as gerações! As manobras sublimes entre Scylla e Carybdes! As Sereias, vogando e cantando em tôrno do mastro, de onde êle, amarrado, as rechaçava com o mudo dardejar dos olhos mais agudos que dardos! A descida aos Infernos, jàmais concedida a um mortal!... E agora homem de tam rutilantes feitos jazia numa ilha mole, eternamente prêso, sem amor, pelo amor duma Deusa! ¿Como poderia êle fugir, rodeado de mar indomável, sem nave, nem companheiros para mover os remos longos? Os Deuses ditosos certamente esqueciam quem tanto por êles combatera e sempre piedosamente lhes votara as reses devidas, mesmo através do fragor{309} e fumaraça das cidadelas derrubadas, mesmo quando a sua prôa encalhava em terra agreste!... E ao herói, que recebera dos Reis da Grécia as armas de Aquiles, cabia por destino amargo engordar na ociosidade duma ilha mais lânguida que uma cêsta de rosas, e estender as mãos amolecidas para as iguarias abundantes, e, quando águas e caminhos se cobriam de sombra, dormir sem desejo com uma Deusa que, sem cessar, o desejava.

Assim gemia o magnânimo Ulisses, à beira do mar lustroso... E eis que de repente um sulco de desusado brilho, mais rutilantemente branco que o duma estrêla caíndo, riscou a rutilância do céu, desde as alturas até à cheirosa mata de tuias e cedros, que assombreava um golfo sereno, a oriente da Ilha. Com alvoroço bateu o coração do herói. Rasto tam refulgente, na refulgência do dia, só um Deus o podia traçar através do largo Ouranos. ¿Um Deus, pois, descera à Ilha?

[II]

Um Deus descera, um grande Deus... Era o Mensageiro dos Deuses, o leve, eloqùente Mercúrio. Calçado com aquelas sandálias que{310} teem duas asas brancas, os cabelos côr de vinho cobertos pelo casco onde batem tambêm duas claras asas, erguendo na mão o Caduceu, êle fendera o Éter, roçara a lisura do mar sossegado, pisara a areia da Ilha, onde as suas pègadas ficavam rebrilhando como palmilhas de oiro novo. A-pesar de percorrer toda a terra, com os recados inumeráveis dos Deuses, o luminoso Mensageiro não conhecia aquela ilha de Ogigya—e admirou, sorrindo, a beleza dos prados de violetas tam doces para o correr e brincar de Ninfas, e o harmonioso faiscar dos regatos por entre os altos e lânguidos lírios. Uma vinha, sôbre esteios de jaspe, carregada de cachos maduros, conduzia, como fresco pórtico salpicado de sol, até à entrada da gruta, toda de rochas polidas, de onde pendiam jasmineiros e madre-silvas, envoltas no sussurrar das abelhas. E logo avistou Calipso, a Deusa ditosa, sentada num Trono, fiando em roca de oiro, com fuso de oiro, a lã formosa de púrpura marinha. Um aro de esmeraldas prendia os seus cabelos muito anelados e ardentemente louros. Sob a túnica diáfana a mocidade imortal do seu corpo rebrilhava, como a neve quando a aurora a tinge de rosas nas colinas eternas povoadas de Deuses. E, emquanto torcia o fuso, cantava um trinado e fino canto, como trémulo fio de cristal vibrando da Terra ao Céu. Mercúrio pensou: «Linda ilha, e linda Ninfa!»{311}