XXIII

Ouves ao longe retumbar na serra
O som do bronze que nos causa horror...

XXIV

De dentro do embrulho sahiu um gemido. Correu então para o casebre—quasi esbarrou com a Carlota, que se apoderou logo da criança.
—Ahi está, disse elle. Mas ouça lá. Isto agora é sério. Agora é outra coisa. Olhe que o não quero morto... É para o tratar. O que se passou não vale... É para o criar! é para viver. Vossê tem a sua fortuna... Trate d'elle!...
—Não tem duvida, não tem duvida, dizia a mulher apressada.
—Escute... A criança não vai bem agasalhada. Ponha-lhe o meu capote.
—Vai bem, senhor, vai bem.
—Não vai, com mil diabos! É o meu filho! Ha de levar o capote! Não quero que morra de frio!
Atirou-lh'o aos hombros com força, traçando-lh'o sobre o peito, agasalhando a criança;—e a mulher já enfastiada metteu rapidamente pela estrada.
Amaro ficou alli plantado no meio do caminho, vendo o vulto perder-se na negrura. Então todos os seus nervos, depois d'aquelle choque, se relaxaram n'uma fraqueza de mulher sensivel—e rompeu a chorar.
Muito tempo rondou a casa. Mas ella permanecia na mesma escuridão, n'aquelle silencio que o aterrava. Depois, triste e fatigado, veio voltando para a cidade, quando batiam as dez badaladas na Sé.
A essa hora, na sala de jantar da Ricoça, o doutor Gouvêa ceava tranquillamente o frango assado que lhe preparára a Gertrudes, para depois das canceiras do dia. O abbade Ferrão, sentado junto da mesa, assistia-lhe á ceia; viera munido dos sacramentos para o caso de haver perigo. Mas o doutor estava satisfeito; durante as oito horas de dôres a rapariga mostrára-se corajosa; o parto fôra feliz, de resto, e sahira um rapagão que fazia muita honra ao papá.
O bom abbade Ferrão baixava castamente os olhos áquelles detalhes, no seu pudor de sacerdote.
—E agora, dizia o doutor trinchando o peito do frango, agora que eu introduzi a criança no mundo, os senhores (e quando digo os senhores, quero dizer a Igreja) apoderam-se d'elle e não o largam até á morte. Por outro lado, ainda que menos sôfregamente, o Estado não o perde de vista... E ahi começa o desgraçado a sua jornada do berço á sepultura, entre um padre e um cabo de policia!
O abbade curvou-se, e tomou uma estrondosa pitada preparando-se para a controversia.
—A Igreja, continuava o doutor com serenidade, começa, quando a pobre creatura ainda nem tem sequer a consciencia da vida, por lhe impôr uma religião...
O abbade interrompeu, meio sério, meio rindo:
—Ó doutor, ainda que não seja senão por caridade com a sua alma, devo advertil-o que o sagrado Concilio de Trento, canon decimo terceiro, commina a pena d'excommunhão contra todo o que disser que o baptismo é nullo, por ser imposto sem a aceitação da razão.
—Tomo nota, abbade. Eu estou acostumado a essas amabilidades do Concilio de Trento para commigo e outros collegas...
—Era uma assembléa respeitavel! acudiu o abbade já escandalisado.
—Sublime, abbade. Uma assembléa sublime. O Concilio de Trento e a Convenção foram as duas mais prodigiosas assembléas d'homens que a terra tem presenciado...
O abbade fez uma visagem de repugnacia áquelle cotejo irreverente entre os santos auctores da doutrina e os assassinos do bom rei Luiz XVI.
Mas o doutor proseguiu:
—Depois, a Igreja deixa a criança em paz algum tempo emquanto ella faz a sua dentição e tem o seu ataque de lombrigas...
—Vá, vá, doutor! murmurava o abbade, escutando-o pacientemente, de olhos cerrados—como significando «anda, anda, enterra bem essa alma no abysmo de fogo e pez»!
—Mas quando se manifestam no pequeno os primeiros symptomas de razão, continuava o doutor, quando se torna necessario que elle tenha, para o distinguir dos animaes, uma noção de si mesmo e do universo, então entra-lhe a Igreja em casa e explica-lhe tudo! Tudo! Tão completamente, que um gaiato de seis annos que não sabe ainda o b-a-bá tem uma sciencia mais vasta, mais certa, que as reaes academias combinadas de Londres, Berlim e Paris! O velhaco não hesita um momento para dizer como se fez o universo e os seus systemas planetarios; como appareceu na terra a creação; como se succederam as raças; como passaram as revoluções geologicas do globo; como se formaram as linguas; como se inventou a escripta... Sabe tudo: possue completa e immutavel a regra para dirigir todas as acções e formar todos os juizos; tem mesmo a certeza de todos os mysterios; ainda que seja myope como uma toupeira vê o que se passa na profundidade dos céos e no interior do globo; conhece, como se não tivesse feito senão assistir a esse espectaculo, o que lhe ha de succeder depois de morrer... Não ha problema que não decida... E quando a Igreja tem feito d'este marmanjo uma tal maravilha de saber, manda-o então aprender a lêr... O que eu pergunto é: para que?
A indignação tinha emmudecido o abbade.
—Diga lá abbade, para que os mandam os senhores ensinar a lêr? Toda a sciencia universal, o res scibilis, está no Catecismo: é metter-lh'o na memoria, e o rapaz possue logo a sciencia e consciencia de tudo... Sabe tanto como Deus... De facto, é Deus mesmo.
O abbade pulou.
—Isso não é discutir, exclamou, isso não é discutir!... Isso são chalaças á Voltaire! Essas coisas devem-se tratar mais d'alto...
—Como chalaças, abbade? Tome um exemplo: a formação das linguas. Como se formaram? Foi Deus, que descontente com a Torre de Babel...
Mas a porta da sala abriu-se, e appareceu a Dionysia. Havia pouco o doutor tinha-lhe dado uma desanda no quarto d'Amelia; e agora a matrona fallava-lhe sempre encolhida de terror.
—Senhor doutor, disse ella no silencio que se fez, a menina acordou e diz que quer o filho.
—E então? A criança levaram-n'a, não?
—A criança levaram-n'a... disse a Dionysia.
—Bem, acabou-se...
Dionysia ia fechar a porta, mas o doutor chamou-a.
—Ouça lá, diga-lhe que a criança vem ámanhã... Que ámanhã sem falta que lh'a trazem. Minta. Minta como um cão; aqui o senhor abbade dá licença... Que durma, que socegue.
A Dionysia retirou-se. Mas a controversia não recomeçou: diante d'aquella mãi que acordava depois da fadiga do parto e reclamava o seu filho, o filho que lhe tinham levado para longe e para sempre, os dois velhos esqueceram a Torre de Babel e a formação das linguas. O abbade sobretudo parecia commovido. Mas o doutor não tardou, sem piedade, a lembrar-lhe que eram aquellas as consequencias da situação do padre na sociedade...
O abbade baixou os olhos, occupado na sua pitada, sem responder, como ignorando que houvesse um padre n'aquella historia infeliz.
O doutor então, seguindo a sua idéa, discursou contra a preparação e educação ecclesiastica.
—Ahi tem o abbade uma educação dominada inteiramente pelo absurdo: resistencia ás mais justas solicitações da natureza, e resistencia aos mais elevados movimentos da razão. Preparar um padre é crear um monstro que ha de passar a sua desgraçada existencia n'uma batalha desesperada contra os dois factos irresistiveis do universo—a força da Materia e a força da Razão!
—Que está o senhor a dizer? exclamou assombrado o abbade.
—Estou a dizer a verdade. Era que consiste a educação d'um sacerdote? Primò: em o preparar para o celibato e para a virgindade; isto é, para a suppressão violenta dos sentimentos mais naturaes. Secundò: em evitar todo o conhecimento e toda a idéa que seja capaz d'abalar a fé catholica; isto é, a suppressão forçada do espirito d'indagação e d'exame, portanto de toda a sciencia real e humana...
O abbade erguera-se, ferido d'uma piedosa indignação:
—Pois o senhor nega á Igreja a sciencia?
—Jesus, meu caro abbade, continuou tranquillamente o doutor, Jesus, os seus primeiros discipulos, o illustre S. Paulo representaram em parabolas, em epistolas, n'um prodigioso fluxo labial, que as producções do espirito humano eram inuteis, pueris, e sobretudo perniciosas...
O abbade passeava pela sala, indo contra um e outro movel como um boi espicaçado, apertando as mãos na cabeça na desolação d'aquellas blasphemias; não se conteve, gritou:
—O senhor não sabe o que diz!... Perdão, doutor, peço-lhe humildemente perdão... O senhor faz-me cahir em peccado mortal... Mas isso não é discutir... Isso é fallar com a leviandade d'um jornalista...
Lançou-se então com calor n'uma dissertação sobre a sabedoria da Igreja, os seus altos estudos gregos e latinos, toda uma philosophia creada pelos santos padres...
—Leia S. Basilio! exclamou. Lá verá o que elle diz dos estudos dos auctores profanos, que são a melhor preparação para os estudos sagrados! Leia a Historia dos mosteiros na meia idade! Era lá que estava a sciencia, a philosophia...
—Mas que philosophia, senhor, mas que sciencia! Por philosophia meia duzia de concepções d'um espirito mythologico, em que o mysticismo é posto em logar dos instinctos sociaes... E que sciencia! Sciencia de commentadores, sciencia de grammaticos... Mas vieram outros tempos, nasceram sciencias novas que os antigos tinham ignorado, a que o ensino ecclesiastico não offerecia nem base nem methodo, estabeleceu-se logo o antagonismo entre ellas e a doutrina catholica!... Nos primeiros tempos, a Igreja ainda tentou supprimil-as pela perseguição, a masmorra, o fogo! Escusa de se torcer, abbade... O fogo, sim, o fogo e a masmorra. Mas agora não o póde fazer e limita-se a vituperal-as em mau latim... E no emtanto continúa a dar nos seus seminarios e nas suas escólas o ensino do passado, o ensino anterior a essas sciencias, ignorando-as, e desprezando-as, refugiando-se na escolastica... Escusa d'apertar as mãos na cabeça... Estranha ao espirito moderno, hostil nos seus principios e nos seus methodos ao desenvolvimento espontaneo dos conhecimentos humanos... O senhor não é capaz de negar isto! Veja o Syllabus no seu canon terceiro excommungando a Razão... No seu canon decimo terceiro...
A porta abriu-se timidamente; era ainda a Dionysia:
—A pequena está a choramingar, diz que quer a criança.
—Mau, mau! disse o doutor.
E depois d'um momento:
—Que tal aspecto tem ella? Está córada? Está inquieta?
—Não senhor, está bem. Só a choramingar, a fallar no pequeno... Diz que o quer hoje por força...
—Converse com ella, distraia-a... Veja se ella adormece...
A Dionysia retirou-se; e o abbade logo com cuidado:
—Ó doutor, suppõe que lhe possa fazer mal o affligir-se?
—Póde-lhe fazer mal, abbade, póde—disse o doutor que rebuscava na sua pharmacia portatil. Mas eu vou-a fazer dormir... Pois é verdade, a Igreja hoje é uma intrusa, abbade!
O abbade tornou a levar as mãos á cabeça.
—Escusa de ir mais longe, abbade. Veja a Igreja em Portugal. É grato observar-lhe o estado de decadencia...
Pintou-lh'o a largos traços, de pé, com o seu frasco na mão. A Igreja fôra a Nação; hoje era uma minoria tolerada e protegida pelo Estado. Dominára nos tribunaes, nos conselhos da corôa, na fazenda, na armada, fazia a guerra e a paz; hoje um deputado da maioria tinha mais poder que todo o clero do reino. Fôra a sciencia no paiz; hoje tudo o que sabia era algum latim macarronico. Fôra rica, tinha possuido no campo districtos inteiros e ruas inteiras na cidade; hoje dependia para o seu triste pão diario do ministro da justiça, e pedia esmola á porta das capellas. Recrutára-se entre a nobreza, entre os melhores do reino; e hoje, para reunir um pessoal, via-se no embaraço e tinha de o ir buscar aos engeitados da Misericordia. Fôra a depositaria da tradição nacional, do ideal collectivo da patria; e hoje, sem communicação com o pensamento nacional (se é que o ha) era uma estrangeira, uma cidadã de Roma, recebendo de lá a lei e o espirito...
—Pois se está assim tão prostrada, mais uma razão para a amar!—disse o abbade, erguendo-se escarlate.
Mas a Dionysia tinha de novo apparecido á porta.
—Que temos mais?
—A menina está-se a queixar d'um peso na cabeça. Diz que sente faíscas diante dos olhos...
O doutor então immediatamente, sem uma palavra, seguiu a Dionysia. O abbade, só, passeava pela sala ruminando toda uma argumentação erriçada de textos, de nomes formidaveis de theologos, que ia fazer desabar sobre o doutor Gouvêa. Mas, meia hora passou, a luz do candieiro ia esmorecendo, e o doutor não voltou.
Então aquelle silencio da casa, onde só o som dos seus passos sobre o soalho da sala punha uma nota viva, começou a impressionar o velho. Abriu a porta devagarinho, escutou; mas o quarto d'Amelia era muito afastado, ao fim da casa, ao pé do terraço; não vinha de lá nem rumor nem luz. Recomeçou o seu passeio solitario na sala, n'uma tristeza indefinida que o ia invadindo. Desejaria bem ir vêr tambem a doente; mas o seu caracter, o pudor sacerdotal não lhe permittiam aproximar-se sequer d'uma mulher no leito, em trabalho de parto, a não ser que o perigo reclamasse os sacramentos. Outra hora mais longa, mais funebre, passou. Então, em pontas de pés, córando na escuridão d'aquella audacia, foi até ao meio do corredor: agora, aterrado, sentia no quarto d'Amelia um ruido confuso e surdo de pés movendo-se vivamente no soalho, como n'uma lucta. Mas nem um ai, nem um grito. Recolheu á sala, e abrindo o seu Breviario começou a rezar. Sentiu os chinelos da Gertrudes passarem rapidamente, n'uma carreira. Ouviu uma porta a distancia bater. Depois o arrastar no soalho d'uma bacia de latão. E emfim o doutor appareceu.
A sua figura fez empallidecer o abbade: vinha sem gravata, com o collarinho espedaçado; os botões do collete tinham saltado; e os punhos da camisa, voltados para traz, estavam todos manchados de sangue.
—Alguma coisa, doutor?
O doutor não respondeu, procurando rapidamente pela sala o seu estojo, com a face animada d'um calor de batalha. Ia já sahir com o estojo, mas lembrando-lhe a pergunta anciosa do abbade:
—Tem convulsões, disse.
O abbade então deteve-o á porta, e muito grave, muito digno:
—Doutor, se ha perigo, peço-lhe que se lembre... É uma alma christã em agonia, e eu estou aqui.
—Certamente, certamente...
O abbade tornou a ficar só, esperando. Tudo dormia na Ricoça, D. Josepha, os caseiros, a quinta, os campos em redor. Na sala, um relogio de parede, enorme e sinistro, que tinha no mostrador a carranca do sol e em cima sobre o caixilho a figura esculpida em pau d'uma coruja pensativa, um movel de castello antigo, bateu a meia noite, depois uma hora. O abbade a cada momento ia até ao meio do corredor: era o mesmo rumor de pés n'uma lucta; outras vezes um silencio tenebroso. Voltava então para o seu Breviario. Meditava n'aquella pobre rapariga que, além no quarto, estava talvez no momento que ia decidir da sua eternidade: não tinha ao pé nem a mãi, nem as amigas: na memoria apavorada devia passar-lhe a visão do peccado: diante dos olhos turvos apparecia-lhe a face triste do Senhor offendido: as dôres contorciam o seu corpo miseravel: e na escuridão em que ia penetrando, sentia já o halito ardente da aproximação de Satanaz. Temeroso fim do tempo e da carne!—Então rezava fervorosamente por ella.
Mas depois pensava no outro que fôra uma metade do seu peccado, e que agora na cidade, estirado na cama, resonava tranquillamente. E rezava então tambem por elle.
Tinha sobre o Breviario um pequeno [crucifixo]. E contemplava-o com amor, abysmava-se enternecido na certeza da sua força, contra a qual era bem pouca a sciencia do doutor e todas as vaidades da razão! Philosophias, idéas, glorias profanas, gerações e imperios passam: são como os suspiros ephemeros do esforço humano: só ella permanece e permanecerá, a cruz—esperança dos homens, confiança dos desesperados, amparo dos frageis, asylo dos vencidos, força maior da humanidade: crux triumphus adversus demonios, crux oppugnatorum murus...
Então o doutor entrou, muito escarlate, vibrante d'aquella tremenda batalha que estava dando lá dentro á morte; vinha buscar outro frasco; mas abriu a janella, sem uma palavra, para respirar um momento uma golfada d'ar fresco.
—Como vai ella? perguntou o abbade.
—Mal, disse o doutor sahindo.
O abbade, então, ajoelhou, balbuciou a oração de S. Fulgencio:
—Senhor, dá-lhe primeiro a paciencia, dá-lhe depois a misericordia...
E alli ficou, com a face nas mãos, apoiado á beira da mesa.
A um rumor de passos na sala ergueu a cabeça. Era a Dionysia, que suspirava, recolhendo todos os guardanapos que encontrava nas gavetas do aparador.
—Então, senhora, então? perguntou-lhe o abbade.
—Ai, senhor abbade, está perdidinha... Depois das convulsões que foram d'arripiar, cahiu n'aquelle somno, que é o somno da morte...
E olhando para todos os cantos como para se assegurar da solidão, disse muito excitada:
—Eu não quiz dizer nada... Que o senhor doutor tem um genio!... Mas sangrar a rapariga n'aquelle estado é querer matal-a... Que ella tinha perdido pouco sangue, é verdade... Mas nunca se sangra ninguem em semelhante momento. Nunca, nunca!
—O senhor doutor é homem de muita sciencia...
—Póde ter a sciencia que quizer... Eu tambem não sou nenhuma tola... Tenho vinte annos d'experiencia... Nunca me morreu nenhuma nas mãos, senhor abbade... Sangrar em convulsões! Até causa horror!...
Estava indignada. O senhor doutor tinha torturado a creaturinha. Até lhe quizera administrar chloroformio...
Mas a voz do doutor Gouvêa berrou por ella do fundo do corredor—e a matrona abalou, com o seu mólho de guardanapos.
O medonho relogio, com a sua coruja pensativa, bateu as duas horas, depois as tres... O abbade, agora, cedia a espaços a uma fadiga de velho, cerrando um momento as palpebras. Mas resistia bruscamente: ia respirar o ar pesado da noite, olhar aquella treva de toda a aldeia; e voltava a sentar-se, a murmurar, com a cabeça baixa, as mãos postas sobre o Breviario:
—Senhor, volta os teus olhos misericordiosos para aquelle leito d'agonia...
Foi então Gertrudes que appareceu commovida. O senhor doutor mandára-a a baixo acordar o moço para pôr a egoa ao cabriolet.
—Ai, senhor abbade, pobre creaturinha! Ia tão bem, e de repente isto... Que foi por lhe tirarem o filho... Eu não sei quem é o pai, mas o que sei é que n'isto tudo anda um peccado e um crime!...
O abbade não respondeu, orando baixo pelo padre Amaro.
O doutor então entrou com o seu estojo na mão:
—Se quizer, abbade, póde ir, disse.
Mas o abbade não se apressava, olhando o doutor, com uma pergunta a bailar-lhe nos labios entreabertos, e retendo-a por timidez: emfim, não se conteve, e n'um tom de medo:
—Fez-se tudo, não ha remedio, doutor?
—Não.
—É que nós, doutor, não devemos aproximar-nos d'uma mulher em parto illegitimo senão n'um caso extremo...
—Está n'um caso extremo, senhor abbade, disse o doutor, vestindo já o seu grande casacão.
O abbade então recolheu o Breviario, a cruz—mas antes de sahir, julgando do seu dever de sacerdote pôr diante do medico racionalista a certeza da eternidade mystica que se desprende do momento da morte, murmurou ainda:
—É n'este instante que se sente o terror de Deus, o vão do orgulho humano...
O doutor não respondeu, occupado a afivelar o seu estojo.
O abbade sahiu—mas, já no meio do corredor, voltou ainda, e fallando com inquietação:
—O doutor desculpe... Mas tem-se visto, depois dos soccorros da religião, os moribundos voltarem a si de repente, por uma graça especial... A presença do medico então póde ser util...
—Eu ainda não vou, ainda não vou, disse o doutor, sorrindo involuntariamente de vêr a presença da Medicina reclamada para auxiliar a efficacia da Graça.
Desceu, a vêr se estava prompto o cabriolet.
Quando voltou ao quarto d'Amelia, a Dionysia e a Gertrudes, de rojos ao lado da cama, rezavam. O leito, todo o quarto estava revolvido como um campo de batalha. As duas velas consumidas extinguiam-se. Amelia estava immovel, com os braços hirtos, as mãos crispadas d'uma côr de purpura escura—e a mesma côr mais arroxeada cobria-lhe a face rigida.
E debruçado sobre ella, com o crucifixo na mão, o abbade dizia ainda, n'uma voz d'angustia:
Jesu, Jesu, Jesu! Lembra-te da graça de Deus! Tem fé na misericordia divina! Arrepende-te no seio do Senhor! Jesu, Jesu, Jesu!
Por fim, sentindo-a morta, ajoelhou, murmurando o Miserere. O doutor que ficára á porta retirou-se devagarinho, atravessou em bicos de pés o corredor, e desceu á rua, onde o moço segurava a egoa atrellada.
—Vamos ter agua, senhor doutor, disse o rapaz bocejando de somno.
O doutor Gouvêa ergueu a gola do paletot, accommodou o seu estojo no assento—e d'ahi a um momento o cabriolet rodava surdamente pela estrada, sob a primeira pancada de chuva, cortando a escuridão da noite com o clarão vermelho das suas duas lanternas.

XXV

Ipse ratem conto subigit, velisque ministrat
Et ferruginea subvectat corpora cymba.

XXVI

Lista de erros corrigidos

Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:

OriginalCorrecção
[#pág. 81]?uz...luz
[ #pág. 88]arcepispo...arcebispo
[ #pág. 95]branços...braços
[ #pág. 152]elle...ella
[ #pág. 344]demolissse...demolisse
[ #pág. 357]religão...religião
[ #pág. 357]Infelimente...Infelizmente
[ #pág. 357]podia ter ter...podia ter
[ #pág. 360]tataruga...tartaruga
[ #pág. 372]patite...patife
[ #pág. 396]exemplicar...exemplificar
[ #pág. 397]cebeça...cabeça
[ #pág. 425]installado-se...installando-se
[ #pág. 428]encondo...encontrado
[ #pág. 430]iria em em...iria em
[ #pág. 436]enconder...esconder
[ #pág. 460]atravessassse...atravessasse
[ #pág. 463]malacia...malicia
[ #pág. 478]grades...grandes
[ #pág. 489]necesario...necessario
[ #pág. 489]viessa...viesse
[ #pág. 492]entercimento...enternecimento
[ #pág. 558]appareeeu...appareceu
[ #pág. 634]cruxifico...crucifixo