—Pelo amor de Deus! Pelo amor de Deus, senhor parocho! exclamou Amelia rompendo n'um chôro nervoso.
—Não chore, disse elle tomando-lhe suavemente a mão entre as suas, muito tremulas. Escute, abra-se commigo... Vá, esteja socegada, tudo se remedeia. Não ha banhos publicados... Diga-lhe que não quer casar, que sabe tudo, que o odeia...
Esfregava, apertava devagarinho a mão d'Amelia. E subitamente, com voz d'um ardor brusco:
—Não se importa com elle, não é verdade?
Ella respondeu muito baixo, com a cabeça cahida sobre o peito:
—Não.
—Então, ahi tem! fez excitado. E diga-me, gosta d'outro?
Ella não respondeu, com o peito a arfar fortemente, os olhos dilatados para o lume.
—Gosta? diga, diga!
Passou-lhe o braço sobre o hombro, attrahindo-a dôcemente. Ella tinha as mãos abandonadas no regaço; sem se mover voltou devagar para elle os olhos resplandecentes sob uma nevoa de lagrimas, e entreabriu devagar os labios, pallida, toda desfallecida. Elle estendeu os beiços a tremer—e ficaram immoveis, collados n'um só beijo, muito longo, profundo, os dentes contra os dentes.
—Minha senhora! minha senhora! gritou de repente, n'um terror, a voz da Ruça, dentro.
Amaro ergueu-se d'um salto, correu ao quarto da entrevada. Amelia estava tão tremula, que precisou encostar-se á porta da cozinha um momento, com as pernas vergadas, a mão sobre o coração. Recuperou-se, desceu a acordar a mãe.
Quando entraram no quarto da idiota, Amaro ajoelhado, com a face quasi sobre o leito, rezava: as duas senhoras rojaram-se no chão; uma respiração accelerada sacudia o peito, as ilhargas da velha; e á medida que o arquejo se tornava mais rouco, o parocho precipitava as suas orações. Subitamente o som agonisante cessou: ergueram-se: a velha estava immovel, com os bugalhos dos olhos sahidos e baços. Expirára.
O padre Amaro trouxe logo as senhoras para a sala;—e ahi a S. Joanneira, curada, pelo choque, da sua enxaqueca, desabafou, em accessos de chôro, recordando o tempo em que a pobre mana era nova, e que bonita era! e que bom casamento estivera para fazer com o morgado da Vigareira!...
—E o genio mais dado, senhor parocho! Uma santa! E quando a Amelia nasceu, e que eu estive tão mal, que não se tirou de ao pé de mim, noite e dia!... E alegre, não havia outra... Ai, Deus da minha alma, Deus da minha alma!
Amelia, encostada á vidraça na sombra da janella, olhava entorpecida a noite negra.
Bateram então á campainha. Amaro desceu, com uma vela. Era João Eduardo, que ao vêr o parocho áquella hora na casa,—ficou petrificado, junto da porta aberta; emfim balbuciou:
—Eu vinha saber se havia novidade...
—A pobre senhora expirou agora mesmo...
—Ah!
Os dois homens olharam-se um instante fixamente.
—Se eu sou preciso para alguma coisa... disse João Eduardo.
—Não, obrigado. As senhoras vão-se deitar.
João Eduardo fez-se pallido da coléra que lhe davam aquelles modos de dono da casa. Esteve ainda um momento, hesitando—mas vendo o parocho abrigar a luz, com a mão, contra o vento da rua:
—Bem, boa noite, disse.
—Boa noite.
O padre Amaro subiu:—e depois de deixar as duas senhoras no quarto da S. Joanneira (porque, cheias de terror, queriam dormir juntas), voltou ao quarto da morta, despertou a vela sobre a mesa, accommodou-se n'uma cadeira, e começou a lêr o Breviario.
Mais tarde, quando toda a casa estava silenciosa, o parocho, sentindo o somno entorpecel-o, veio á sala de jantar; reconfortou-se com um calix de vinho do Porto que achára no aparador; e saboreava regaladamente o cigarro, quando ouviu na rua passos de botas fortes que iam, vinham, por baixo das janellas. Como a noite estava escura não pôde distinguir «o passeante».—Era João Eduardo que rondava a casa, furioso.
XIII
XIV
«Snr. João Eduardo.
«criada de v. s.a
«Amelia Caminha».
XV
E as senhoras, em alarido, arremetteram para a cozinha. A mesma S. Joanneira as seguiu, como boa dona de casa, para fiscalisar a fogueira.
Os tres padres então, sós, olharam-se—e riram.
—As mulheres têm o diabo no corpo, disse o conego philosophicamente.
—Não senhor, padre-mestre, não senhor, acudiu logo Natario fazendo-se sério. Eu rio porque a coisa, assim vista, parece patusca. Mas o sentimento é bom. Prova a verdadeira devoção ao sacerdocio, horror á impiedade... Emfim o sentimento é excellente.
—O sentimento é excellente, confirmou Amaro, tambem sério.
O conego ergueu-se:
—E é que se pilhassem o homem eram capazes de o queimar... Não lh'o digo a brincar, que a mana tem figados para isso... É um Torquemada de saias...
—Está na verdade, está na verdade, affirmou Natario.
—Eu não resisto a ir vêr a execução! exclamou o conego. Eu quero vêr com os meus olhos!
E os tres padres então foram até á porta da cozinha. As senhoras lá estavam, em pé diante da lareira, batidas da luz violenta da fogueira que fazia destacar estranhamente as mantas d'agasalho de que já se tinham coberto. A Ruça, de joelhos, soprava esfalfada. Tinham cortado com o facão a encardernação do Panorama; e as folhas retorcidas e negras, com um faiscar de fagulhas, voavam pela chaminé nas linguas do fogo claro. Só a luva de pellica não se consumia. Debalde com as tenazes a punham no vivo da chamma: tisnava, reduzida a um caroço engorolado; mas não ardia. E a sua resistencia aterrava as senhoras.
—É que é a da mão direita com que commetteu o desacato! dizia furiosa D. Maria da Assumpção.
—Bufa-lhe, rapariga, bufa-lhe! aconselhava da porta o conego muito divertido.
—O mano faz favor de não troçar com coisas sérias! gritou D. Josepha.
—Oh, mana! a senhora quer saber melhor que um sacerdote como é que se queima um impio? A pretenção não está má! É bufar-lhe, é bufar-lhe!
Então, confiadas na sciencia do senhor conego, a Gansoso e D. Maria da Assumpção, acocoradas, bufaram tambem. As outras olhavam, n'um sorriso mudo, o olho brilhante e cruel, no gozo d'aquella exterminação grata a Nosso Senhor. O fogo estalava, pulando com uma força galharda, na gloria da sua antiga funcção de purificador dos peccados.—E por fim sobre as achas em braza, nada restou do Panorama, do lenço e da luva do impio.
A essa hora João Eduardo, o impio, no seu quarto, sentado aos pés da cama, soluçava, com a face banhada em lagrimas, pensando em Amelia, nos bons serões da rua da Misericordia, na cidade para onde iria, na roupa que empenharia, e perguntando em vão a si mesmo porque o tratavam assim, elle que era tão trabalhador, que não queria mal a ninguem, e que a adorava tanto, a ella?
XVI
XVII
Laudo Deum, populum voco, congrego clerum.
Defunctum ploro, pestem fugo, festa decoro...