Livraria Internacional de Ernesto Chardron
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1888
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OS MAIAS
VOLUME II
OS MAIAS
I
Conservava sempre as suas grandes idéas do trabalho, querendo que no seu dia só houvesse horas nobres,—e que aquellas que não pertenciam ás puras felicidades do amor, pertencessem ás alegrias fortes do estudo. Ia ao laboratorio, ajuntava algumas linhas ao seu manuscripto. Mas antes da visita á rua de S. Francisco não podia disciplinar o espirito, inquieto, n'um tumulto d'esperanças; e depois de voltar de lá, passava o dia a recapitular o que ella dissera, o que elle respondera, os seus gestos, a graça de certo sorriso... Fumava então cigarrettes, lia os poetas.
Todas as noites no escriptorio d'Affonso se formava a partida de whist. O marquez batia-se ao dominó com o Taveira, enfronhados ambos n'aquelle vicio, com um rancor crescente que os levava a injurias. Depois das corridas, o secretario de Steinbroken começára a vir ao Ramalhete; mas era um inutil, nem cantava sequer como o seu chefe as balladas da Filandia; cahido no fundo d'uma poltrona, de casaca, de vidro no olho, bamboleando a perna, cofiava silenciosamente os seus longos bigodes tristes.
O amigo que Carlos gostava de vêr entrar era o Cruges—que vinha da rua de S. Francisco, trazia alguma coisa do ar que Maria Eduarda respirava. O maestro sabia que Carlos ia todas as manhãs ao predio vêr a «miss ingleza»; e muitas vezes, innocentemente, ignorando o interesse de coração com que Carlos o escutava, dava-lhe as ultimas noticias da visinha...
—A visinha lá ficou agora a tocar Mendelhson... Tem execução, tem expressão, a visinha... Ha alli estofo... E entende o seu Choppin.
Se elle não apparecia no Ramalhete, Carlos ia a casa buscal-o: entravam no Gremio, fumavam um charuto n'alguma sala isolada, fallando da visinha; Cruges achava-lhe «um verdadeiro typo de grande dame».
Quasi sempre encontravam o conde de Gouvarinho, que vinha ver (como elle dizia a faiscar d'ironia) o que se passava «no paiz do snr. Gambetta». Parecera remoçar ultimamente, mais ligeiro nos modos, com uma claridade d'esperança nas lunetas, na fronte erguida. Carlos perguntava-lhe pela condessa. Lá estava no Porto, nos seus deveres de filha...
—E seu sogro?
O conde baixava a face radiante, para murmurar cava e resignadamente:
—Mal.
Uma tarde, Carlos conversava com Maria Eduarda, acariciando Niniche que se lhe viera sentar nos joelhos, quando Romão entreabriu discretamente o reposteiro, e baixando a voz, com um ar embaraçado, um ar de cumplicidade, murmurou:
—É o snr. Damaso!...
Ella olhou o Romão, surprehendida d'aquelles modos, e quasi escandalisada.
—Pois bem, mande entrar!
E Damaso rompeu pela sala, carregado de luto, de flôr ao peito, gorducho, risonho, familiar, com o chapeu na mão, trazendo dependurado por um barbante um grande embrulho de papel pardo... Mas ao vêr Carlos alli, intimamente, de cadellinha no collo, estacou assombrado, com o olho esbugalhado, como tonto. Emfim desembaraçou as mãos, veio comprimentar Maria Eduarda quasi de leve,—e voltando-se logo para Carlos, de braços abertos, todo o seu espanto trasbordou ruidosamente:
—Então tu aqui, homem? Isto é que é uma surpreza! Ora quem me diria!... Eu estava mais longe...
Maria Eduarda, incommodada com aquelle alarido, indicou-lhe vivamente uma cadeira, interrompeu um instante o bordado, quiz saber como elle tinha chegado.
—Perfeitamente, minha senhora... Um bocado cançado, como é natural... Venho direitinho de Penafiel... Como v. exc.a vê—e mostrou o seu luto pesado—acabo de passar por um grande desgosto.
Maria Eduarda murmurou uma palavra de sentimento, vaga e fria. Damaso pousára os olhos no tapete. Vinha da provincia cheio de côr, cheio de sangue; e como cortára a barba (que havia mezes deixára crescer para imitar Carlos) parecia agora mais bochechudo e mais nedio. As côxas roliças estalavam-lhe de gordura dentro da calça de casimira preta.
—E então, perguntou Maria Eduarda, temol-o por cá algum tempo?
Elle deu um puxãosinho á cadeira, mais para junto d'ella, e outra vez risonho:
—Agora, minha senhora, ninguem me arranca de Lisboa! Podem-me morrer... Isto é, credo! teria grande ferro se me morresse alguem. O que quero dizer é que ha de custar a arrancar-me d'aqui!
Carlos continuava muito socegadamente a acariciar os pêllos da Niniche. E houve então um pequeno silencio. Maria Eduarda retomára o bordado. E Damaso, depois de sorrir, de tossir, de dar um geito ao bigode, estendeu a mão para acariciar tambem Niniche sobre os joelhos de Carlos. Mas a cadellinha, que havia momentos o espreitava com o olho desconfiado, ergueu-se, rompeu a ladrar furiosa.
—C'est moi, Niniche! dizia Damaso, recuando a cadeira. C'est moi, ami... Alors, Niniche...
Foi necessario que Maria Eduarda reprehendesse severamente Niniche. E, aninhada de novo no collo de Carlos, ella continuou a espreitar Damaso, rosnando, e com rancor.
—Já me não conhece, dizia elle embaçado, é curioso...
—Conhece-o perfeitamente, acudiu Maria Eduarda muito séria. Mas não sei o que o snr. Damaso lhe fez, que ella tem-lhe odio. É sempre este escandalo.
Damaso balbuciava, escarlate:
—Ora essa, minha senhora! O que lhe fiz?... Caricias, sempre caricias...
E então não se conteve, fallou com ironia, amargamente, das amizades novas de Mademoiselle Niniche. Alli estava nos braços d'outro, emquanto que elle, o amigo velho, era deitado ao canto...
Carlos ria.
—Ó Damaso, não a accuses de ingratidão... Pois se a snr.a D. Maria Eduarda está a dizer que ella sempre te teve odio...
—Sempre! exclamou Maria.
Damaso sorria tambem, lividamente. Depois, tirando um lenço de barra negra, limpando os beiços e mesmo o suor do pescoço, lembrou a Maria Eduarda como ella o tinha desapontado no dia das corridas... Elle toda a tarde á espera...
—Eram vesperas de partida, disse ella.
—Sim, bem sei, o marido de v. exc.a... E como vai o snr. Castro Gomes? V. exc.a já recebeu noticias?
—Não, respondeu ella com o rosto sobre o bordado.
Damaso cumpriu ainda outros deveres. Perguntou por Mademoiselle Rosa. Depois por Cri-cri. Era necessario não esquecer Cri-cri...
—Pois v. exc.a—continuou elle, cheio subitamente de loquacidade—perdeu, que as corridas estiveram esplendidas... Nós ainda não nos vimos depois das corridas, Carlos. Ah, sim, vimo-nos na estação... Pois não é verdade que estiveram muito chics? Olhe, minha senhora, d'uma coisa póde v. exc.a estar certa, é que hippodromo mais bonito não ha lá fóra. Uma vista até á barra, que é d'appetite... Até se vêem entrar os navios... Pois não é assim, Carlos?
—Sim, disse Carlos, sorrindo. Não é propriamente um campo de corridas... É verdade que não ha tambem propriamente cavallos de corridas... Verdade seja que não ha jockeys... Ora é verdade que não ha apostas... Mas é verdade tambem que não ha publico...
Maria Eduarda ria, alegremente.
—Mas então?
—Vêem-se entrar os navios, minha senhora...
Damaso protestava, com as orelhas vermelhas. Era realmente querer dizer mal á força... Não senhor, não senhor!... Eram muito boas corridas. Tal qual como lá fóra, as mesmas regras, tudo...
—Até na pesagem, acrescentou elle muito sério, fallamos sempre inglez!
Repetiu ainda que as corridas eram chics. Depois não achou mais nada:—e fallou de Penafiel, onde chovera sempre tanto que elle vira-se forçado a ficar em casa, estupidamente, a lêr...
—Uma massada! Ainda se houvesse alli umas mulheres para ir dar um bocado de cavaco... Mas qual! Uns monstros. E eu, lavradeiras, raparigas de pé descalço, não tolero... Ha gente que gosta... Mas eu, acredite v. exc.a, não tolero...
Carlos corára: mas Maria Eduarda parecia não ter ouvido, occupada a contar attentamente as malhas do seu bordado.
De repente Damaso recordou-se que tinha alli um presentinho para a snr.a D. Maria Eduarda. Mas não imaginasse que era alguma preciosidade... Verdadeiramente até o presente era para Mademoiselle Rosa.
—Olhe, para não estar com mysterios, sabe o que é? Tenho-o alli no embrulhosinho de papel pardo... São seis barrilinhos d'ovos molles d'Aveiro. É um dôce muito célebre, mesmo lá fóra. Só o de Aveiro é que tem chic... Pergunte v. exc.a ao Carlos. Pois não é verdade, Carlos, que é uma delicia, até conhecido lá fóra?
—Ah, certamente, murmurou Carlos, certamente...
Pousára Niniche no chão, erguera-se, fôra buscar o seu chapéo.
—Já?... perguntou-lhe Maria Eduarda, com um sorriso que era só para elle. Até ámanhã, então!
E voltou-se logo para o Damaso, esperando vêl-o erguer-se tambem. Elle conservou-se installado, com um ar de demora, familiar, e bamboleando a perna. Carlos estendeu-lhe dois dedos.
—Au revoir, disse o outro. Recados lá no Ramalhete; hei de apparecer!...
Carlos desceu as escadas, furioso.
Alli ficava pois aquelle imbecil impondo a sua pessoa, grosseiramente, tão obtuso que não percebia o enfado d'ella, a sua regelada seccura! E para que ficava? Que outras crassas banalidades tinha ainda a soltar, em calão, e de perna traçada? E de repente lembrou-lhe o que elle lhe dissera na noite do jantar do Ega, á porta do Hotel Central, a respeito da própria Maria Eduarda, e do seu systema com mulheres «que era o atracão». Se aquelle idiota, de repente, abrazado e bestial, ousasse um ultraje? A supposição era insensata, talvez—mas reteve-o no pateo, applicando o ouvido para cima, com idéas ferozes de esperar alli o Damaso, prohibir-lhe de tornar a subir aquella escada, e, á menor reflexão d'elle, esmagar-lhe o craneo nas lages...
Mas sentiu em cima a porta abrir-se, e sahiu vivamente, no receio de ser assim surprehendido á escuta. O coupé do Damaso estacionava na rua. Então veio-lhe uma curiosidade mordente de saber quanto tempo elle ficaria alli com Maria Eduarda. Correu ao Gremio; e apenas abrira uma vidraça—viu logo o Damaso sahir do portão, saltar para o coupé, bater com força a portinhola. Pareceu-lhe que trazia o ar escorraçado, e subitamente teve dó d'aquelle grutesco...
N'essa noite, depois de jantar, Carlos só no seu quarto fumava, enterrado n'uma poltrona, relendo uma carta do Ega recebida n'essa manhã,—quando appareceu o Damaso. E, sem pousar mesmo o chapéo, logo da porta, exclamou, com o mesmo espanto da manhã:
—Então dize-me cá! Como diabo te vou eu encontrar hoje com a brazileira?... Como a conheceste tu? Como foi isso?
Sem mover a cabeça do espaldar da poltrona, cruzando as mãos sobre os joelhos em cima da carta do Ega, Carlos, agora cheio de bom humor, disse, com uma dôce reprehensão paternal:
—Pois então tu vaes expôr a uma senhora as tuas opiniões lubricas sobre as lavradeiras de Penafiel!
—Não se trata d'isso, sei muito bem o que hei de expôr! exclamou o outro, vermelho. Conta lá, anda... Que diabo! Parece-me que tenho direito a saber... Como a conheceste tu?
Carlos, imperturbavel, cerrando os olhos como para se recordar, começou, n'um tom lento e solemne de recitativo:
—Por uma tepida tarde de primavera, quando o sol se afundava em nuvens d'oiro, um mensageiro esfalfado pendurava-se da campainha do Ramalhete. Via-se-lhe na mão uma carta, lacrada com sello heraldico; e a expressão do seu semblante...
Damaso, já zangado, atirou com o chapéo para cima da mesa.
—Parece-me que era mais decente deixar-te d'esses mysterios!
—Mysterios? Tu vens obtuso, Damaso. Pois tu entras n'uma casa onde existe ha quasi um mez uma pessoa gravemente doente, e ficas assombrado, petrificado, ao encontrar lá o medico! Quem esperavas tu vêr lá? Um photographo?
—Então quem está doente?
Carlos, em poucas palavras, disse-lhe a bronchite da ingleza—emquanto o Damaso, sentado á beira do sofá, mordendo o charuto sem lume, olhava para elle desconfiado.
—E como soube ella onde tu moravas?
—Como se sabe onde mora o rei; onde é a alfandega; de que lado luz a estrella da tarde; os campos onde foi Troia... Estas coisas que se aprendem nas aulas de instrucção primaria...
O pobre Damaso deu alguns passos pela sala, embezerrado, com as mãos nos bolsos.
—Ella tem agora lá o Romão, o que foi meu criado, murmurou depois d'um silencio. Eu tinha-lh'o recommendado... Ella leva-se muito pelo que eu lhe digo...
—Sim, tem, por uns dias, emquanto o Domingos foi á terra. Vai mandal-o embora, é um imbecil, e tu tinhas-lhe ensinado más maneiras...
Então Damaso atirou-se para o canto do sofá e confessou que ao entrar na sala, quando dera com os olhos em Carlos, de cadellinha no collo, ficára furioso... Emfim, agora que sabia que era por doença, bem, tudo se explicava... Mas primeiro parecera-lhe que andava alli tramoia... Só com ella, ainda pensou em lhe perguntar: depois receou que não fosse delicado; e além d'isso ella estava de mau humor...
E acrescentou logo, accendendo o charuto:
—Que apenas tu sahiste, pôz-se melhor, mais á vontade... Rimos muito... Eu fiquei ainda até tarde, quasi duas horas mais; era perto das cinco quando sahi. Outra coisa, ella fallou-te alguma vez de mim?
—Não. É uma pessoa de bom gosto; e sabendo que nos conhecemos, não se atreveria a dizer-me mal de ti.
Damaso olhou-o, esgazeado:
—Ora essa!... Mas podia ter dito bem!
—Não; é uma pessoa de bom senso, não se atreveria tambem.
E erguendo-se vivamente, Carlos abraçou Damaso pela cinta, acariciando-o, perguntando-lhe pela herança do titi, e em que amores, em que viagens, em que cavallos de luxo ia gastar os milhões...
Damaso, sob aquellas festas alegres, permanecia frio, amuado, olhando-o de revez.
—Olha que tu, disse elle, parece-me que me vaes sahindo tambem um traste... Não ha a gente fiar-se em ninguem!
—Tudo na terra, meu Damaso, é apparencia e engano!
Seguiram d'alli á sala do bilhar fazer «a partida de reconciliação». E pouco a pouco, sob a influencia que exercia sempre sobre elle o Ramalhete, Damaso foi socegando, risonho já, gozando de novo a sua intimidade com Carlos no meio d'aquelle luxo sério, e tratando-o outra vez por «menino». Perguntou pelo snr. Affonso da Maia. Quiz saber se o bello marquez tinha apparecido. E o Ega, o grande Ega?...
—Recebi carta d'elle, disse Carlos. Vem ahi, temol-o talvez cá no sabbado.
Foi um espanto para o Damaso.
—Homem! essa é curiosa! E eu encontrei os Cohens, hoje!... Vieram ha dois dias de Southampton... Jógo eu?
Jogou, falhou a carambola.
—Pois é verdade, encontrei-os hoje, fallei-lhes um instante... E a Rachel vem melhor, vem mais gorda... Trazia uma toilette ingleza com coisas brancas, coisas côr de rosa... Chic a valer, parecia um moranguinho! E então o Ega de volta?... Pois, menino, ainda temos escandalo!