Jesus Bar'Abbas pediu-me um drachma, e disse-me que n'essa noite Simeon, um rico do sanhedrin, tinha uma ceia para os officiaes do templo e sacerdotes, fóra das muralhas, em Betphagé.

Simeon amava as festas, tinha vivido em Roma, era soberbo; contava com orgulho que fôra amigo do gladiador Esterius.

Bar'Abbas fazia rir Simeon: comia com os seus servos, dormia nos seus atrios.

N'essa noite fui a casa do Hannan. Nos pateos, João aquecia-se ao lume, junto da velha de Capharnaum.

Caiphaz e Gamaliel estavam com Hannan. Gamaliel dizia versos gregos: Hannan, repousado, com os olhos cerrados, grave, escutava; Caiphaz aquilino, duro, aspero, tinha uma attitude desdenhosa. Dois escribas, encrusados no chão, comiam.

Quando o serão ia remoto, repentinamente Caiphaz mandou-me a casa de Simeon. O sanhedrin devia reunir-se ao outro dia pela hora oitava: tinha havido exigencias do legado imperial sobre os vasos do templo.

Um escravo negro de Hannan seguia-me com uma lanterna; a noite era negra, quente, molle: ouviam-se apenas uivar os cães.

Em Betphagé, os servos de Simeon conduziram-me ao pomar onde era a ceia, sob um grande velario feito á moda grega, suspenso ás ramagens dos cedros. O chão estava coberto de areia vermelha, luzidia. Largas lampadas resplandeciam. Flôres de Damasco, rosas de Jerichó, jasmins de Chorasin, e as plantas fortes de Galaad, pendentes dos vasos negros de Perca como serpentes verdes, penetravam o ar da molle vitalidade que dão os aromas. No chão estavam amphoras, grossos cantharos envoltos em palha, jarros cinzelados. Os escravos phrygios, com os longos cabellos relusentes de oleo, giravam apressados.

Havia alli membros do sanhedrin, escribas, sacerdotes, herodianos, sadduceus, phariseus. Todos eram zelosos devotos, amplos em sacrificios: alguns costumavam cobrir-se de cinza. Estavam todos deitados em estrados, cobertos com lãs de Babylonia. Alguns eram gordos, fortes, vermelhos. Quasi todos tinham a physionomia aspera, adunca, eriçada de barbas. Relusiam cabeças calvas.

O vinho doirado, o vinho de Safed, um falerno de Cesarea, dava uma ampla respiração aos peitos, uma feliz scintillação aos agudos olhos negros. Havia largas risadas. Phariseus austeros, que se ferem nas pedras dos caminhos, curvados sobre os discos d'aço brunido, devoravam com um ruido devoto. Outros tinham olhares anciosos, e desapercebidamente, esvasiavam as largas taças de bronze. Alguns, decrepitos, desdentados, tinham sobre a barba fios de molho. Velhas mãos tremulas e lividas levantavam as amphoras.