Mas a Arte tomava-o já a esse tempo fundamente, e ia-se-lhe o tempo a ler, a scismar, a idear, a cogitar os aspectos subtis das cousas.

Eça de Queiroz morava em casa da familia, ao Rocio, no 4.ᵒ andar do predio n.ᵒ 26. O seu quarto—pequeno, com uma mesa ao centro e uma estante para poucos livros,—dava para a rua do Principe. Ahi foram, em parte, escriptos os Folhetins das Prosas barbaras.

III

Haviamos-nos creado um mundo como que áparte da realidade:

Quando por algum tempo nos separavamos durante o dia, reuniamos-nos logo, ás horas de jantar, ou depois, n'um qualquer Restaurante pouco frequentado, cerca da rua larga de S. Roque ou do Chiado.

Á sobremeza o café abria-nos as regiões visionarias em que viviamos: O Eça de Queiroz bebia-o com attenção concentrada e reverente, curvado de alto sobre a chavena, para onde cada feição, principalmente o nariz comprido e adunco, como que se prolongava aguçada. A uma primeira chavena seguia-se uma segunda e uma terceira; e iamos para minha casa continuar a beber café, ás vezes até madrugada.

N'estas circumstancias foram escriptos, por Eça de Queiroz, muitos dos Contos agora reunidos em volume.

Eu morava no primeiro andar da casa n.ᵒ 19 da então travessa do Guarda-mór,[1] em pleno Bairro alto.

No meu quarto de estudante[2] havia um grande armario cheio de livros, cavado na espessura da parede, uma grande mesa central sobre que se escrevia, e uma secretaria de feitio estranho, dada a meu pae por Almeida Garrett, usada por este para escrever de pé, que suggerio a Eça de Queiroz a fórma da mesa onde, annos depois, em Paris, quasi sempre trabalhava. Uma larga janella de sacada abria para a rua dos Calafates[3] em frente a predios baixos que, por isso, não impediam o accesso do ar, da luz, e a vista d'um espaço aberto que dava uma impressão de villa de provincia. No mais proximo d'esses predios moravam duas raparigas, muito novas e bonitas, a cantar, costurando activamente o dia inteiro, entre craveiros e mangericões, por vezes, para o Eça de Queiroz e outros lyricos phantasistas que me visitavam, pontos de partida de longas variações, em verso e prosa, sobre o Eterno feminino.

Certas noutes, entrava o Eça de Queiroz, já tarde, no meu quarto, com um rolo de papel na mão, dizendo: