Derroca-se o mundo velho, desmoronam-se os poemas intelligiveis, escalavra-se o vocabulario terreno, Quijote encancha-se nos largos hombros do Sancho materialão e positivo, e accommete os Guaramantas adversarios. Arraiam-se os horisontes com os primeiros albores do dia novo, les diables s'en vont, isto é, desapparecem os cantores pedestres; a immensidade rebôa ao galopar de ginetes que se approximam. Vencemos Alarico! Temperem-se os alaudes, afinem-se os psalterios, e o canto dos bardos glorifique as nossas façanhas!»
—«Barbaros, barbaros!»—diz então uma voz que se chama a consciencia!
V
Finalisemos por agora. Traçando estas breves considerações sobre a actual polemica litteraria não tive em mente aggredir nem este nem aquelle bando, mas simplesmente dizer o que penso a respeito do assumpto que se debate, dando de mão a incidentes. Não quiz, tampouco, assumir o papel de propugnador de A. F. de Castilho; tenho para mim que defendel-o seria injurial-o, seria duvidar da robustez{14} d'aquello talento. Elle bem sabe que ha atheos na arte como os ha na religião;—homens que negam a divindade. Que se lhes ha de fazer? punir-lhes a descrença com a tortura? nunca. O crê ou morre é a razão suprema da tyrannia estupida. Quando alguem ousa profanar o altar ante o qual deveria curvar-se respeitoso, cumpre admoestar o pagão, e cathequisal-o em seguida.
Quem são esses gigantes que ousam escalar o ceo, sotopando os montes, e encumiando-se n'elles com a mais esbagaxada pantalonice? Resurgiram Efialto e Briareu, ou os vulcões espirram no estrebuxar d'estes filhos da terra? Nada é de certo. Os gigantes dormem, e os deoses permanecem. A serenidade magestosa é o caracteristico d'estes ultimos. Applaudo a longanimidade do sr. Castilho; mais lhe applaudiria ainda o silencio completo. Ninguem o maculou, ninguem o ferio; passe a mão pelo rosto e verá que o sente incolume. As ballas rojaram-lhe pelos pés, frias e inoffensivas. O arcabuz que as despedira não tinha alcance para tão alto. Que ha novo n'estes accommettimentos audaciosos? Estamos, principalmente, n'uma épocha de reacção; o fermento da philosophia anda a levedar por todos os lados; a arte sente-se trabalhada pelas ancias de um parto laborioso. Teremos um Deos ou um murganho? Volvamos os olhos para o oriente, proclamemos a luz, combatamos a obscuridade; eis tudo. A escola de Coimbra, (não façamos questão sobre este vocabulo escola), parece estar convencida que o bello é o inextrincavel, que os genios devem fazer-se ouvir, como os heroes de Ossian, atravez dos nevoeiros. Eu creio o inverso; o que ahi fica dito é, portanto, a minha carta de crença litteraria. Lamento as intelligencias que se trasmontam como as ovelhas que se trasmalham. Se eu fosse pastor nas lettras tresnoutar-me-ía para as encarreirar. Que fazer alem d'isto? como adoptar outros alvitres? Este tumulto que se levantou, e que por desgraça tem tomado um corpo desmedido, só pode terminar pelo convencimento. Antes d'isso a lucta ha de padecer do mal de todas as luctas. Quando as armas da razão se quebrarem nas mãos dos combatentes, ficar-lhes-ha nos labios o praguejar insultuoso. Não queiramos para nós este recurso.
Dois ou tres mancebos em cujo espirito fez móça a rajada{15} da philosophia, seguiram com ella, fazendo a sua derrota em demanda de novos mundos. Advertil-os era tarefa de piloto experiente. Fel-o, não sei se com asperesa, mas ao certo com verdade. Os modernos descobridores sublevaram-se, e feriram o ceo com uma celeuma desatinada. Começou então a contenda. Nas aguas que primeiro sulcaram alguns bergantins de pequena guinda, navegam já hoje galeões alterosos. Que significa, todavia, esse pavilhão que tem por mote = dignidade e independencia = que os sinaleiros do infinito içam ao tope do arvoredo? Quem lhes disse a elles que se lhes quer beliscar no fôro intimo de escriptores? quem lhes prégou a servidão como evangelho do poeta? quem pensa em que as aguias tragam ao pescoço um trambolho, como os cães por tempo de vindima? Ninguem, que eu saiba. O que se diz, o que se affirma, o que se protesta é que as theorias ensarilhadas da Allemanha, que vieram até nós fazendo escalla pela França, nem lá tem estorroado grandes caminhos para o futuro, nem por cá farão milagre; é que o poeta não tem que jurar a cada momento por Michelet, como os teutões por Hermann, nem deve ensinar a derrubar a santidade das crenças para erguer n'esse throno devoluto uma chimera de treslidos, um ideal avariado.
O que se diz, o que se affirma, o que se protesta é que a arte, no alto sentido d'esta palavra, só deve ter por fim dissipar o que é nuvem, lavar o que é macula, levantar o que é rasteiro, arejar o que é fetido, allumiar o que é sombra, robustecer o que é anemico, limpar dos cogumelos do atheismo risivel a planta nascente que se apruma para o céo. Ninguem vos quer enfeudar, ninguem attenta contra a vossa dignidade de homens de lettras. Pensaes edificar para os seculos e trabalhaes para o esquecimento; julgaes fazer a luz e amontoaes as trevas. A vossa obra é como o abysmo de Milton,
—«A dungeon horrible on all sides round,
—yet from those flames
No light, buth ralher darkness visible.»—
D'esta appreciação, d'este modo de julgar a nova escola que tende a implantar-se entre nós, tem resultado as vaias descompostas, e as censuras bem cabidas. Despresar{16} aquellas é dever, aceitar estas prova é de discernimento e de cordura. O afan com que a maior parte dos nossos escriptores, (e alguns de primeira grandesa), anda involvida n'esta pugna, diz bem alto aos pachorrentos que ella não é tão frivola como isso. A faisca póde tornar-se incendio, como a raiz póde converter-se em floresta. Defendem-se as immunidades da arte como se defendem as da patria; os sacerdotes do bello vigiam pelo seu culto.
Eu, sem ter vaidades tresloucadas, entendi que poderia vir tambem a publico, não de mitra e báculo, para exorcismar os energumenos, mas como simples leigo, que, se não destrinça ainda bem todos os mysterios do rito, tem, pelo menos, fé viva na religião dos seus maiores.