Não tendo sido possivel arrancal-o ao seu conhecido retraimento, filho de uma imperiosa e irresistivel modestia—na grandeza só comparavel á do seu realissimo merito—na verdade, qualquer socio d'esta Academia, sem distincção de classe, poderia assumir a tarefa, visto que o Conde de Ficalho, á semelhança de Latino Coelho e de Corvo, illustradissimo em quasi todos os ramos da sciencia, foi tambem, mais do que simples cultor de boas lettras, escriptor consummado.
É assim que, como a qualquer outro poderia caber, sou n'este momento o porta-voz da Academia na glorificação do seu fallecido socio, sem outro especial motivo que não seja, para mim, a razão... academica, de que tendo{2} elle, botanico, feito um dia n'esta mesma sala o elogio do chimico Antonio Augusto de Aguiar, a Chimica estaria de certa maneira em divida para com a Botanica......
É artificiosa esta invocação de um Deve e Ha de Haver em materia de panegyricos academicos?
Será. Mas amplamente corrigida fica pelo veridico, sincero, nada artificioso sentimento, que tão grato me torna prestar aqui, em nome collectivo, a um collega desapparecido, a homenagem do apreço e admiração que em vida todos lhe consagravamos, e que para mim se radicou em vinte annos de excellente camaradagem escolar.
O justo elogio do Conde de Ficalho surgiu, pode dizer-se immediato, por occasião do seu fallecimento, em todos os orgãos da imprensa, pois com elle desapparecera uma das personalidades de maior notoriedade da sociedade portugueza na ultima metade do seculo passado.
A sua complexa e brilhante individualidade pôl-a, tambem brilhantemente, em elegante relevo o elogio proferido em outro logar pelo Conde de Arnoso[[1]], e na Tradição[[2]], interessante publicação, a que o nosso consocio muito queria, e que viu a luz em Serpa, antiga villa-solar da Casa de Ficalho, um numero especial de homenagem lhe foi consagrado, com a collaboração de Ramalho Ortigão, D. Antonio Xavier Pereira Coutinho, Theophilo Braga, Conde de Sabugosa, Sousa Viterbo, e outros distinctos ornamentos da sciencia e das lettras portuguezas.
Chega mais tarde a Academia. Mas ainda não chega tarde, considerado o nosso já conhecido e descançado apego ao proverbial conceito de que quem tem pressa... vae devagar.
Mas quantos teem esperado mais... e continuarão a esperar?...
Da demora não terão, pois, á priori, de queixar-se os manes do nosso defuncto collega, se é que nas empireas regiões, onde pairam os espiritos evolados da Terra, os manes academicos ficam conservando interesse e gosto pelas coisas do nosso instituto.
Mas se essa mysteriosa telepathia atravez do Infinito existe de facto, e{3} d'isso agora tremo, de receiar é então que, em vez do infundado reparo de demasiada demora, se justifique antes, em concilio dos academicos que nos precederam na grande e tenebrosa viagem, a conclusão de que melhor fôra demorar muito mais, como para outros, a consagração a que hoje nos propomos.