—Que davam velas.
—Pois já fica sabendo que não.
—Parece-me que a senhora é uma dessas agentes do protestantismo que andam a arranjar pessoas para a seita; porém advirto-lhe que aqui perde o seu tempo, porque, pelo que respeita a nós, nem a senhora nem ninguem nos engana. Vá, amigasinha, vá divertir-se no enterro, e passe muito bem.
Entretanto, um homem, já de edade avançada, discutia na rua com varios jovens que o rodeavam.
—Sim, senhores: entre nós, quando um irmão morre, somos nós mesmos que o conduzimos e o enterramos com as nossas proprias mãos, sempre na terra, porque nos cemiterios evangelicos não ha nichos, nem galerias, para os cadaveres, e que custam dinheiro; de modo que quem entra num cemiterio catolico pode muito bem figurar-se que está lendo os preços dos logares dum teatro, onde o rico se assenta num camarote, e o pobre vae para a geral.
—Isso é muito natural—disse um.
—Não o julgo assim; pois, ensinando-nos os padres que uma das obras de misericordia é enterrar os mortos, são eles proprios que levam dinheiro.
—Ouça lá—interrompeu outro,—tambem muitas vezes enterram de graça.
—Sim!—exclamou o velho—bonito enterro, não tem duvida! Comparemos. Morre qualquer pessoa que deixa, por exemplo, uns dois mil duros. Então a egreja, que é de todos, se converte no patrimonio dum. Ao longo das naves colocam bancos cobertos de pano preto; acendem-se todos os altares; as luzes, em volta da eça, não teem numero; no côro cantam-se os hinos proprios, acompanhados por uma orquestra, que á noite terá de servir no teatro; os sacerdotes trajam as suas mais ricas vestes e... que sei eu quantas coisas mais; os padres cantam com toda a força dos pulmões, os meninos do côro correm alegres dum lado para o outro: o sacristão anda numa roda viva: o defunto é gordo e... tanto basta... Porém morre um pobre. Pois então a coisa muda completamente de figura. Uma mulher miseravelmente vestida dirige-se a casa do pároco, e diz-lhe, entre lagrimas e soluços, que lhe morreu seu marido, seu pae ou seu irmão; o padre toma nota das indicações que a mulher lhe dá, porém quando vem a saber que é pobre e que tem de fazer o enterro por caridade, diz-lhe que se retire, e que á hora aprasada lá irão buscar o cadaver. Ora, porque o padre tem que fazer, não vae a casa do defunto; os doridos pedem aos visinhos que o acompanhem ao cemiterio; estes assim o fazem, e, quando lá chegam, aproxima-se o padre, que diz um tal latinorio qualquer, deita-lhe uma hissopada de agua, a que chamam benta, e retira-se. Ora diga-me: É isto uma obra de misericordia? Onde está aqui a caridade?
—Que divertido é o velho!—disse um daqueles jovens.