Á direita da porta da entrada ha um canto escuro, e nele uma especie de guarita, mais ou menos artistica, que é aquilo a que a egreja romana chama um confessionario.
Ali dentro senta-se uma personagem mais sombria ainda; junto á grade do confessionario está uma senhora elegantemente vestida. Não podemos saber se é nova ou velha, porque tem o rosto coberto com um véu negro.
Aproximemo-nos silenciosamente, e, ainda que nos alcunhem de indiscretos, escutemos a confissão desta senhora, a qual pode interessar-nos alguma coisa. Neste momento fala o padre.
—Quanto tempo tem V. Ex.ª deixado passar desde que se confessou pela ultima vez?
—Quinze dias, meu padre—respondeu a penitente;—mas não me dê esse tratamento, peço-lhe.
—Quinze dias! Porque esteve todo esse tempo sem vir ao tribunal da penitencia?
—Meu padre, não tenho podido, porque... nos foi necessario, umas vezes, receber em nossa casa, outras ir ao Paço, e ainda outras ocuparmo-nos de coisas similhantes.
—Isso não é desculpa, mas, emfim, sente-se arrependida de ter deixado decorrer todo esse tempo sem vir lavar a sua alma?
—Sinto-me, sim, senhor.